quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Âncora



Me joguei no mar
Sou mais forte que o ar
Minha jangada é de pedra
Minha tacada é incerta
Minha alma riscou o chão
e separou o sol do céu
Virei peixe-palhaço
que anima festa e fica um bagaço
Deixei de ser cruzeiro
agora sou real
sou barco de pesca
batizado por algum ancestral
Deixei de ser pó de estrela
Agora sou gota d’água
Mato a sede na saliva
e arremesso a cusparada
Meu coração em disparada
pede pra parar
mas nem ouço
Seu moço, eu só sei pensar
Virei anêmona-do-mar. 

 (Ouça Maresia, Adriana Calcanhotto)  

(Tan Lines by Rachel Maves)

sábado, 22 de novembro de 2014

Ensaiando opiniões: ode às mulheres, por Eduardo Galeano



               Após uma baita decepção com “O lado bom da vida” – até que o livro estava indo bem, mas o filme me fez interromper a leitura na hora; nem Bradley Cooper foi capaz de me fazer ver até o final – resolvi ler “Mulheres”, Eduardo Galeano. Para ser sincera, não estava lá muito animada; há tempos que não leio algo que realmente me excita em termos literários, acho que a última coisa “maravilhosa” que li foi “A estrada da noite”. Mas sim, resolvi ler essa obra de Galeano porque meu dedo de uni-duni-tê parou justamente nele. E sabe como é, eu acredito piamente nessas forças sobrenaturais.
               São 132 páginas recheadas de contos curtos, curtinhos mesmo, curtíssimos. Alguns não ocupam nem metade da página. Mas se tem uma coisa que o leitor aprende desde pequenininho (ou desde o primeiro bom livro que lê) é que, não importa o tamanho da história, se tem muitas ou poucas linhas. Aliás, refazendo a frase anterior: o tamanho de uma obra não é medido em linhas, mas sim na sua profundidade, nos caminhos que dá ao leitor.
               Graças a Galeano, conheci mulheres incríveis. Guerreiras, mães, filhas, ninfas... Mulheres normais. Tão normais que passam por nós na rua e nem percebemos. Que passam pelo meu espelho e eu nem percebo.
               A verdade é essa: há infinitas mulheres dentro de uma só – e isso, meus amigos, por mais clichê que pareça, é a mais pura verdade. Acho que devíamos ser cuidadosamente estudadas por cientistas coordenados por poetas. Talvez assim consigam nos entender. O que nos permite ser tantas em uma só? A força. Nascemos com uma força insuperável, fora do comum. Nascemos com o dom de ser quem quisermos ser, independente do espaço, do tempo, da situação. Somos tão ricas em energia, nossa capacidade de nos reinventarmos e de nos levantarmos de todas as quedas, de darmos a nossa outra face mesmo quando não há mais nenhuma face a ser dada (como em “Rigoberta”, p. 107)... Mulheres caem a todo instante. E quanto mais caem, mais se levantam. Ô raça!
               Acabei pensando em outras mulheres conhecidas da literatura. Ando pensando em Macbeth que, apesar do fim trágico após os atos cruéis que cometeu, possuía uma força inigualável. Também pensei em Julieta, outra de Shakespeare, aquela que entregou sua vida ao amor, e nossa, essa filha da mãe transborda em mim. A intrusa de Júlia Lopes de Almeida, meu Deus, que mulher forte, corajosa, maternal. Capitu e sua sensualidade que arrepiava todos os pelos presentes no corpo de Bentinho. Lispector, entorpecida pela humanidade, voou num céu de nuvens cinzas que ninguém quis enfrentar. E tantas, tantas outras que ainda hei de conhecer, e hei de descobrir dentro de mim.
Eu sou mulher, e me identifiquei tanto com todos os contos tão lindamente rendados por Galeano... De revoluções a rotinas, de opressões a “libertações”... Descobri que somos perseguidas porque realmente somos perfeitas, e o tipo de perfeição que cito não é a celestial nem mesmo a que nos reverenciam em noites de amor que, infelizmente, são interrompidas pela manhã. É uma perfeição tão inacreditável que não somos capazes de descrever, de definir.
Não somos santas, não somos putas. Somos livres, mesmo com todas as correntes.

(Ouça Toda espera, Jorge Vercillo) 

                                                                                                (Vicente Romero Redondo)

domingo, 16 de novembro de 2014

Depois do abismo



A gaveta emperrada
no meu armário
O travesseiro molhado –
lágrimas de dormir
O tempo incerto, estranho
Frio
Faz tanto frio que congelo
faz tanto frio que me arrepio
e faço eco
torturo o ego
sou meu pior inimigo.

Nesses dias de dor
aprendi a aprender
o que não sabem me ensinar
Os dias de glória
são lacunas que preencherei
não quando a dor passar
mas quando doer mais.

Te removi das teias
algumas que você nem teceu
Mas não sei te remover do meu tempo
dos meus lenços,
dos meus lençóis...

Não sei te remover de mim.
Não ainda, mas logo, sim. 

(Ouça Nuvem, Engenheiros do Havaii)

 (Edouard Cortes)

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Arroz



Ensino-te a fazer poema
como se faz uma panela de arroz.
Primeiro se doura o alho,
solta-se aquele cheiro,
então se joga o arroz.
Faz-se barulho,
estalo de queimado,
mas não ligue,
poemas e arroz são sempre assim.
Quando o estalo vier
jogue água,
muita água
afogue seus grãos e suas palavras
até agonizarem.
Por fim, se ainda restar água
se ainda restar mágoa
é porque está cru;
volte a cozinhar
até o arroz se aprontar
até o poema vingar.

Mas não se esqueça do sal
em nenhum dos dois;
até porque se é pra morrer
que seja então do coração. 

(Ouça Vatapá, Dorival Caymmi)

(Tumblr)

sábado, 8 de novembro de 2014

Enquanto você (não) dorme



               A noite cai... E o meu corpo também. O colchão é o um mar de rosas, o melhor lugar onde posso estar. Eis o melhor ritual que há: apagar a luz/Deixar um feixe entrar pela cortina só pra lua não se sentir sozinha/Ajeitar a coluna/Abraçar a almofada/Fazer sinal da cruz; quem sabe, rezar/Fechar os olhos.
               Fechar os olhos.
               Fechar.
               Os olhos.
               E a mente lá, aberta como um livro, escancarada como uma fratura exposta, girando, rodopiando, surtando. O dia foi bom. Acordei, cumpri minhas tarefas, fiz tudo ao pé da letra. Dei bom dia, boa tarde e boa noite. Abusei das vírgulas. E ao encerrar esta página, é como se as letras quisessem trocar de lugar e formar novas palavras – que formariam novos atos. Aquele dinheiro que falta. Lembrar-se de abrir a carteira e encontrar um vazio maior que a minha crise existencial. Dívidas, tantas que já perdi as contas – no momento, só sei pagá-las com trocadilhos infames. Aquela mensagem que me esqueci de enviar. Aquela pessoa importante com quem não falei – era coisa boba, mas não importa, o que seria da vida se não falássemos coisas bobas de vez em quando? Pior que falar coisas bobas é não falar. Aquele café amargo, aquele empadão que não caiu bem, aquela música estridente no rádio, aquela notícia que não sai da cabeça, aquela vontade de tomar um chope gelado e sumir, suar, escorrer... Aquele tempo que não passa. Abrir os olhos. Não ver o teto. Pensar. Pensar tanto que dói.
               Aquilo que não deu certo. Não foi pra frente. Decepcionou. Aquele ponto final com cara de reticências, aquele diálogo de um travessão só. Aquela coisa que estranha que a gente vive demonstrando com o mesmo pronome, com a mesma impaciência, com o mesmo vigor... Até ficar repetitivo, cansativo, insuportável. O dinheiro que gastamos. O amor que gastamos. Dinheiro e amor se poupam? Não, nós que nos devíamos nos poupar desses dois. A diferença é que ao ficarmos sem dinheiro só ficamos pobres, enquanto que, sem amor, ficamos fracos, vazios, não somos absolutamente nada. Apenas clichês.
               Olhar o lado da cama vazio. Pensar no outro; fazer cantigas de amor ou de amigo? Imaginar o encontro dos ponteiros. Imaginar-se encontrando a si mesmo. Chorar, porque parece que essa é a melhor hora.
               Afogar-se em lágrimas e pensamentos.
               Fechar os olhos de cansaço. O que vem da alma, sabe?
               Dormir.
               Acordar com outra alma.
               Dormir com outro cansaço. 

(Ouça Me dê motivo, Tim Maia)

(Stefano Orazzini)