domingo, 31 de maio de 2015

Solidão



Já dizia a tão sagaz e revolucionária Música Pop Brasileira: eu acho que pirei. Num piscar de olhos, mexo, remexo e não deixo meu celular em paz. A tal das redes sociais... Facebook, Twitter, Instagram, Snap, Pluct, Plact, Zum. Não vou a lugar nenhum. Não passo da porta, da tela, da janela – eu vejo tudo enquadrado. Enlouqueço. Espero. Acontece que não aconteço. Uma mensagem, um cumprimento, uma curtida, uma ligação. Um abraço. Alguém pra dar a mão. E aí eu me arrasto num parágrafo arrastado, eu e a música lounge, o clima down de outono beirando a inverno, pelo menos o inferno do verão se foi. Filmo viodeclipes imaginários, transbordo numa canção fúnebre meia hora depois, quem sabe uma balada romântica, um jazz, um blues, uma eletrônica pra me ligar na tomada a noite inteira. A pele se arrepia. Na tela, surgem fotos indesejáveis, imagens que me reviram por dentro, me deixam pelo avesso, eu não me esqueço, eu não me acerto. Tropeço. Eu tropecei sem acertar, Zélia. Não passo do chão – passei. Ou melhor, voei. Estou no céu, entre um urubu e um avião. Dentro de mais um minuto estaremos no Galeão... Voam facas e tesouras, controvérsias, contradições. Lá se vai mais uma confusão de domingo. Olha o Lula indo! Olha a gente rindo de um passado distante, de um presente com pinta de insignificante, de um futuro apavorante. Cantar e cantar e cantar... e perder a voz. Ficar tonto. Sem chão. Sem teto. Sem céu. Apita, telefone. Notificação, cadê você? Uepa! Tem gente me chamando. Tem gente me querendo. Tem gente me fazendo... alarme falso. Era solicitação pra jogo... Ah, deixa pra lá. Deixa a música rolar, aquela que a gente não para de ouvir – a gente, eu e você, eu sou o fantasma que habita teu corpo, sou um corvo, um passarinho, um gavião, te faço coruja, sou teu falcão. Harmonia. Breathe in, breathe out. A vida é mesmo assim; definições não faltam. A vida mesmo não; a vida é tudo, tudo que você quiser que ela seja, até mesmo solidão. 

(Ouça Within, Daft Punk)


 

sábado, 16 de maio de 2015

A horta das expectativas

Vamos escrever uma história? 
Seu nome pode ser Maria. Uma mulher forte, morena tropicana no melhor estilo Alceu Valença, taurina, talvez. Pode ter um nome diferente... Luíza, esse nome dá bossa, cê sabe. Luíza seria loira, nascida e criada na zona sul carioca, descendente de francês ou alemão, olhos claros, lábios invejáveis, garota de Ipanema, princesinha de Copa, nem passa pela cozinha. Também pode ser Amélia, essa mesma, sem a menor vaidade - mas ninguém nega, essa sim é mulher de verdade. Cláudia, alta executiva, workaholic, hipocondríaca, anestesiada. Pode ser Beatriz, aquele ser não identificado que Chico cantou... Pode ser Bruninha, Camilinha ou Nandinha, qualquer adolescente nanica virando mulher na base das porradas que a vida dá sem dó nem piedade, ou quem sabe dona Benta, vó Jacira, tia Anastácia, não importa a idade, o tamanho da bagagem, a atividade uterina... Nem o sexo importa. Pode ser homem. Victor, jovem bonito, sarado, deus grego, rato de academia. Luan, quinze anos, bigodinho crescendo, voz mudando, essas coisas. Rafael, dj, criatura que não para em casa e vive por aí, na vida, fingindo que vive - olha que ironia. Um pai de família, talvez... Quem sabe João ou Venâncio, um cara entediado, estressado, descontrolado... Ou mesmo um jovem de vinte e poucos anos cheio de sonhos, vontades e birra, um garotinho brincando de ser adulto. Pode ser Heitor, homem sofisticado, terno importado, um perfume que ninguém esquece. Um grisalho Alberto, um louco Danilo, um estranho Márcio, um lúdico Gabriel, um lúcido Antônio, um infeliz Francisco, um sincero Pedro, um vaidoso Ricardo, um perdido Felipe, um tal de Eustáquio. 
Pode ser qualquer um. De qualquer sexo, signo, cidade, lugar do mundo. Do jeito que for. Não importa o fulano ou fulana: será um jardineiro. Isso, foco no jardim. A horta será a nossa protagonista. Sempre tão louca, desvairada, cheia de agrotóxicos, pragas e outras enfermidades, mas estranhamente viva, imortal. Florida, perfumada, a base da paisagem. Cultivada com afinco. Particular.
A horta das expectativas faz centenas de milhares de zilhões de paisagistas todo santo dia. Somos todos iguais neste jardim. 

(Ouça Giz, Legião Urbana)
(Claude Monet)

domingo, 3 de maio de 2015

Tatuagem



                Resolvi fazer uma tatuagem.
                Há mil possibilidades, reconheço. Posso escrever o nome do meu namorado... Ops, não tenho namorado. Posso tatuar uma palavra em chinês, francês, inglês, hebraico; ninguém vai entender coisa alguma. Em português não, ora, não é chique; vão entender tudo na hora. Pensei em pegadas, estrelas, flores, fadas... Não, não curto modas ultrapassadas. Poesias, talvez. Letras de música, quem sabe.
                E coisas que mexem com a memória?
                Eu tatuaria cheiros. Porque boa parte da minha memória é feita de cheiros – e olha que vez ou outra caio resfriada. Tatuaria o perfume da minha bisavó, o cheiro da rabanada que eu só como uma vez no ano, cheiro de café, de chocolate, de baunilha, daquela limonada que vira caipirinha, cheiro de hortelã, de cominho, de canela, de... de... ah, como é que é o nome daquele perfume que a minha mãe passava em mim quando eu era uma pirralha... eu não sei. Só sei que tatuaria cenas também, e eu tatuaria essa cena. Depois de um banho meio que forçado, em pleno verão naquele clima nada ameno de oitenta graus, entro no quarto e ligo o rádio. Como eu disse, ainda era uma pirralha, muito pirralha, tão pirralha que mamãe (nunca chamei minha mãe de mamãe, mas tudo bem) precisava me arrumar. Ela me enchia daquele perfume enquanto eu botava o rádio pra tocar uma música qualquer. Aquela música... Eu nem me liguei na letra, Deus, quantas vezes preciso dizer que era uma pirralha, mas gente, o que era aquela música. Cada acorde, cada notinha de voz, cada fone pronunciado, cada partícula daquela música se misturava com o feixe de luz solar que entrava pela janela. Acho que foi o momento mais transcendental da minha vida. Quando eu quero fugir das coisas que me cercam, do mundo, seus problemas, mazelas e mimimis, eu volto pra aquele quarto, pra aquele cheiro, pra aquela música. Eu tatuaria aquele dia em mim, assim como aquele cheiro, aquela música... Mas é como se a minha alma já estivesse tatuada.
                Outros momentos que estão em mim e penso em revelar na pele (se bem que o arrepio da mesma os revela): ah, tem tantos outros que não cabem numa simples conversa. Primeiridões, réveillons, carnavais, sorrisos... Mas aí eu viveria de momentos, e não é bem isso que quero. Quero é viver com eles, é diferente, outra preposição.
                Estou decidida. Vou tatuar uma âncora pra mostrar que sou forte, guerreira, invencível e pesada (quase uma mocinha de novela). Não, pensando bem, vou tatuar o infinito mesmo. Ou um oito deitado. 

(Ouça a música que inspirou a cena citada no post: Celacanto, Jorge Vercillo) 

(Federico Rossi)