segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

As certezas



De todas as certezas do mundo, há algumas que preciso contestar.
               Como por exemplo, o futuro. Aquele que pertence a Deus, aos deuses, ao santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador. O futuro é uma certeza contestável; sua imprevisibilidade o faz assim. Pode ser bom, ruim... Mas isso também tem lá seu lado relativo e bem reativo. Portanto, não se segure no que não conhece. O risco de se estabacar no chão é grande.
               Para cada não, existe um sim. É simples. Basta andar com uma balança imaginária para saber quem vale mais – o que não vai adiantar, pois os dois são igualmente importantes. E então, após um cálculo minucioso, você pode dizer ao mundo o que quer e quem você é. Sempre com um pé atrás, claro.
               Os troféus quebram, as flores murcham, as folhas secam, os rostos envelhecem, as pérolas se espalham pelo chão, os tecidos rasgam, o dinheiro muda, os plurais enrolam a língua. Essas são certezas legítimas, incontestáveis e assustadoras. Assim como a imortalidade.
               Aquela que não vemos, mas que já cantaram uma vez e não ficou legal. Aquela que devia ser estudada, aprimorada, patenteada, Deus, deviam fazer uma estátua em homenagem a essa criatura. A imortalidade existe, e é nossa própria criação – já temos motivos para sentirmos orgulho de nós mesmos. Somos imortais quando, mesmo após a despedida, somos lembrados. Quando a distância de dimensões não impede que alguém nessa Terra imperfeita sorria ou solte uma lágrima ao ser surpreendido com nossa figura em sua mente. Mas nem todos são imortais. É preciso ser mais do que especial para receber essa dádiva.
               Você não sabe? Ih, não gosto disso, dessa falta de informação. Mas vamos lá.
               Seja imortal ao fazer algo que nunca será esquecido. Ao amar e ser amado de forma limpa, clara, natural. Seja imortal através de lembranças: fotografias, palavras, missões cumpridas. Sabote o descanso de sua imagem ao fazer-se importante por várias e várias gerações. Mas para tanto, dispense as fórmulas mágicas; simplesmente faça. Siga. Viva. Conjugue os verbos que a língua da vida te oferece. E vê se respeita os pronomes, por favor.
               A imortalidade dá-se na felicidade. Idolatrias boas serão construídas. Seu rosto será eternizado em cabeças que compartilharão com outras cabeças a importância da sua existência. E então, danem-se as cinzas ou o caixão; você fez, então você sempre fará.
               A morte é outra certeza incontestável. Mas essa já perdeu a graça há tempos. 

 (Mary Poppins)

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