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domingo, 10 de janeiro de 2016

Rituais



Resolvi dar uma pausa nos romances – bom, em todos os sentidos. Comecei um livro bem interessante, um desses livros que mais parecem documentários: “Rituais ontem e hoje”, da antropóloga brasileira Mariza Peirano. Curtinho, devo acabar ainda essa semana, antes de embarcar para a Espanha e iniciar uma nova fase neste blog.
            Ah, sim, sobre o livro. Ainda não terminei. Mas o pouco que li – creio que já estou na metade – me fez refletir bastante sobre a ideia de que somos o que fazemos. Creio que essa teoria que minha interpretação sustenta não se encontra na obra, mas ora, essa coisa de interpretação de texto é bem relativa, não é mesmo? Pois bem. Maria diz que nessa eterna guerra entre orientais e ocidentais, há a ideia de quem é racional ou não (escrachadamente dizendo: como se nós ocidentais nos sentíssemos superiores aos orientais que, em nossa visão míope, não passam de retardados). Os orientais têm maior respeito pela religião e por valores sociais de cunho histórico e espiritual – tudo ao mesmo tempo. Seus rituais são literalmente sagrados – não são como nós, que disfarçamos as necessidades da nossa consciência com o termo “hábito”, “mania”, “TOC” (para os que não conhecem a doença e se apropriam do nome por gostarem de fazer graça usando uma hipérbole).
            Não vou me aprofundar nessa rixa que existe desde que o mundo é mundo. Prefiro me voltar apenas para aquele fato que eu já citei anteriormente, e que pretendo defender com unhas e dentes nesse post - ok, sem tanta agressividade. Como eu ia dizendo, somos o que fazemos. Parece uma frase idiota (e realmente é), mas faz todo sentido se focarmos na questão do ritual abordada no livro que tem me botado para dormir nos últimos dias. Não seríamos nada sem nossos rituais, e isso independe do lugar de onde somos. Ocidente e Oriente precisam de suas próprias regras – falo das individuais, lógico.
O mais interessante do ritual é o fato de que ele é uma regra que você cria e que ninguém pode derrubar. É a forma como você leva a sua vida, como se sente bem. Eu, por exemplo, só me sinto realmente pronta para o meu dia quando bebo um copo d’água antes de ingerir qualquer tipo de alimento, até mesmo um leite, um café, um suco. É comprovado cientificamente que a água nos limpa dos ácidos e outros paranauês que ficam retidos em nosso corpo durante a noite, mas pra mim é muito mais do que uma limpeza biológica. É como se eu ativasse os meus sentidos, como se eu despertasse, realmente me acostumasse com a ideia de que o dia nasceu – pro dia nascer feliz, ou melhor, pro dia simplesmente nascer para mim. Tenho outros rituais também, como gritar “calma” quando estou sozinha no elevador, porque acredito realmente que os cabos de aço me ouvirão e me deixarão fazer meu caminho em paz.
No entanto, acredito mais nos rituais internos, íntimos, chame como quiser. No momento, recordo-me apenas de um. Sempre penso as piores coisas que podem acontecer a respeito de uma determinada situação. Quanto mais eu penso, mais eu distancio de presenciar esse momento aparentemente terrível. Este ritual é ótimo, porque fortalece a ideia de que a vida é uma caixinha de surpresas – e realmente ela é. No entanto, vivo sendo iludida por mim mesma. Imagino coisas maravilhosas; mais do que imagino, sonho, e quando sonho, tenho certeza de que nunca vai acontecer, é só o meu subconsciente treinando seu talento para o humor. Meu pensamento é como vassoura voadora que ainda não sei controlar. Deve ser isso.
Rituais são mais do que receitas para um bom dia ou simpatias. Extrapolam a tal da magia negra que tantos trouxas denunciam sem ao menos lerem um pouco. Os rituais fazem parte da cultura de um grupo, de uma sociedade inteira, de uma colônia de sobreviventes. É a prova viva de que estamos vivos, e mais do que isso: podemos desafiar o tempo executando as mesmas práticas dos nossos ancestrais, ou podemos simplesmente criar os nossos rituais, as engrenagens da nossa consciência, as nossas próprias certezas que ultrapassam os conceitos do corpo e do espírito. Pode parecer uma coisa louca demais, que bom. É ótimo quando parece louco e incompreensível: é a prova de que estamos no caminho certo.
Não fazemos o que somos. Somos o que fazemos. É simples e não é.

(Ouça Stars, The XX)


 (William Hawkins)
 

domingo, 15 de novembro de 2015

A tragédia da opinião



                Que o verbo “opinar” está na moda, todo mundo já sabe. De repente, ficou mais fácil achar alguém com opinião do que com bunda (fazendo uma vaga conexão com aquele dito que eu sempre troco as palavras na hora de reproduzir). A princípio, ter o que pensar seria a maior prova de que não somos amebas que vivem dando rolês por aí.
                Até o dia em que ter o que pensar perdeu a importância para o ato de gritar o que se pensa – mesmo que você não pense absolutamente nada.
                Entre bilhões de litros de lama tóxica em Minas e outros litros de sangue que mancham as calçadas da romântica Paris, entre números desencontrados e alardes ou desprezos de uma mídia melindrosa, só existe mesmo a palavra tragédia. A mesma tragédia que nesse momento assola as tão famigeradas e clichês redes sociais – aquelas que você usa para dizer que o seu dia foi uma droga, que o trânsito está infernal e que a conta de luz não para de subir. A tragédia da opinião faz com que todos nós – que não estamos em Minas, Paris ou em qualquer outro lugar assolado pela violência neste momento – sejamos vítimas. Vítimas de nós mesmos.
                A necessidade de expressar a sua opinião é muito mais forte do que desejar paz e conforto aos corações abalados pela tragédia, do que doar um galão de água que seja para uma família mineira, do que enxergar as mazelas que estão bem na sua frente no dia-a-dia mas que você não tem tempo pra ajudar a resolver. Expressar-se é banal. Hoje em dia, não se trata de pensar, de escrever, de estudar, de imaginar, de pintar a cara, vestir a camisa, seja o que for. Hoje em dia, a sua opinião é o seu berro de existência – e no momento, não vejo nada de bom nisso. Não vejo nada de bom em usar um espaço universal para propagar o ódio, o extremismo a tristeza. Não vejo nada de bom em criar competições: quem opina melhor? Quem tem mais curtida? Qual dessas tragédias é mais importante?
                Tem vidas lá fora morrendo, se perdendo por conta do terror, se afogando na lama dos outros. Tem gente se escondendo atrás do medo de sair de casa, de praticar sua religião, de assumir seu gênero. Tem gente com medo de viver. E por isso, nada diz, nada grita, nada expressa. Porque dói tudo. E esse berro é pra um universo disposto a se resumir num ombro amigo, num ouvido solícito, numa alma compreensiva.
                Enquanto isso, tem gente com medo de não ser ouvido. E por isso, há tanto berro ecoando entre execuções no spotify e palavras de jornalistas na tevê. Gente que precisa se expor, que precisa intensificar sua própria dor – que apesar de incomparável, não deve ser superior à dor de quem realmente precisa de ajuda no momento. Gente mesquinha, pequena, digna de pena. Covarde demais pra enfrentar o sangue e a lama, pra rezar por tudo e por todos, pra se sensibilizar por um mundo aparentemente perdido como todos nós.
                Hoje eu rezo por Minas, por Paris, pelo México, por Fortaleza, por todos os lugares atingidos pela violência e por você que, dentro da sua necessidade tão grande de gritar, acaba se esquecendo de que tem horas que o silêncio é capaz (lê-se suficiente) de falar tudo que deve ser dito. 

(Ouça o silêncio)

 (Bonsai Madness by Alex Sirén)

sábado, 31 de janeiro de 2015

Tabu



               O nosso corpo virou arma. Homem-bomba explode metrópole e mata dez, mata cem, mata mil. Mulher para o trânsito e alucina motorista, dispara bafômetros entorpecidos de tédio e vontade de se perderem por aí, mas um perdido mais metafórico, menos mal. Capas de revista. A novela das onze – bom, se duvidar até no programa matutino de receitas aparece um lombo, um peito, um peru – não tem pudores. Sexo virou moda. Não, é algo além do sexo: está mais para o poder de ser, de ter, de mostrar. O que acontece depois... Bom, o amanhã a Deus pertence. Irônico isso, não?
               Engraçado como ainda tem gente que gagueja quando fala disso. Pais, mães, avós, ou até mesmo uns jovenzinhos com vergonha de se abrirem dentro de casa – o duplo ou triplo sentido dessa frase não foi intencional. Aliás, que fique claro: nada que sair desta conversa possui duplo sentido. Tudo aqui tem um sentido só: aquele que o ouvinte quiser. O resto é resto, que se dane, falso moralismo, depravação, chame como quiser. Quem aí tem coragem de dizer do que gosta, o que quer fazer? Quem aí sabe do que gosta? Quem aí se atreve a gostar?
               Não há nada de desnecessário ou dispensável quando se fala de sexo – e sobre quando se faz, bom, mais uma vez é com o freguês. Faz parte da vida. Aliás, em algumas situações é a primeira parte da vida. Tabu é coisa de hoje que existe desde ontem, é estranho mesmo, mais estranho que a própria definição. Mas sexo não é tabu. Pode ser doença sim, ora, assim como comida, trabalho, saúde ou qualquer outro assunto que sair na roleta. Um beijo para as freiras e os padres que vivem sem – ok, nem todos, mas tudo bem. Um parabéns bem grande pros que escolheram esperar. A escolha é de vocês. O corpo é de vocês. O julgamento também. E o tapa na cara em forma de textão em rede social... Já está na hora de mudarmos esse tapa na cara metafórico, vocês não acham?
               A tal apelação que salientam por aí é proporcional aos gritos de blasfêmia. O corpo é nosso. O controle remoto também. O livro, o rádio, a tevê. A gente faz tudo isso. A gente faz a gente. E se envergonhar pra que? Certa vez ouvi por aí que a maior vergonha que temos que ter é de andarmos vestidos. Será que foi Nelson Rodrigues? Não sei, confundo autores, pensamentos e devaneios como quem confunde bundas e seios. Mas sabe de uma coisa? Eu bem que concordo com isso. Nascemos livres, meu bem. Sem roupas, cabelos, maquiagem, joias, o que for. Nos mascaramos com a idade, e ao mesmo tempo em que ainda dizemos que somos livres, censuramos a vida com todas as nossas forças. Portanto, seja lá quem for que tenha dito essa frase, concordo plenamente. Mas ainda não conseguiria viver num mundo representado por uma praia de nudismo. Nada contra, só tenho que terminar meu projeto verão, sabe como é.
               “Mas e as nossas crianças! E as músicas que elas ouvem! E as coisas que elas veem por aí!”. Ora, se as crianças têm acesso a tudo, ok, realmente não dá pra restringir. Mas se não tiver o mínimo de orientação – e o que eu chamo de orientação é conversa, acordo, explicação, mesmo que seja difícil, ah, meu filho, na hora de fazer não foi difícil, fala pra mim –realmente é de ter pena.
               E sabe de uma coisa? Há várias outras opções entre o canal religioso e o Sexy Hot. Vai na fé. Veja o que quiser. Ouça o que quiser. Mas não me obrigue a ver e ouvir o mesmo. Se eu quiser, eu ouço, eu vejo.
               Se eu quiser. 

(Ed Fairburn)
(Ouça Protection, EBTG)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

No mudo



Sempre gostei de lugares cheios. Ônibus, restaurantes, salas de reunião. Gente falando, rindo, reclamando, gesticulando como se o mundo se resumisse em palavras, sons, danças de mãos. Talvez isso tudo seja loucura. Talvez seja apenas uma forma poética de ver o caos, e acabar percebendo que, sem ele, a vida não teria a menor graça.
            Mas é que, ultimamente, a vida tem feito barulho demais - o que me leva a apostar cegamente na primeira opção.
            Em todas as avenidas, opiniões eclodem, buzinam, quase perturbam. Tantas vozes fazem uma só – deturpada, estranha, como se saísse de um desses filmes toscos de horror. Desaprendeu-se a falar; todos gritam. Ninguém canta. Ninguém dança. Ninguém pula carnaval. Talvez a quarta-feira de cinzas seja mais colorida que esses dias cinzas e roucos, porém sempre estridentes. Dias em que tudo parece girar ao redor de cada um, sendo que cada um é realmente um de cada. Vote em quem eu vou votar. Faça o que eu faço. Diga o que eu digo. Pense como eu penso. Liberdade de expressão virou liberdade de opressão. Chuva de verão virou chuva de santinhos sujando a cidade. Balinha de hortelã virou comprimido tarja preta. Arte marcial virou defesa pessoal – e defesa pessoal virou “fazer justiça com as próprias mãos”. E fazer justiça com as próprias mãos... Creio que o sentido antes tido como “sujo” dessa expressão é o que hoje em dia menos me incomoda. Viramos a Geração Enxaqueca, e nos esquecemos que a defesa é o melhor ataque, não é o ataque que é a melhor defesa. Distraídos venceremos, já dizia Leminski. Só não sei exatamente o que.
            Isso é mais do que uma reclamação. É mais do que um grito de socorro esperando por um salva-vidas não necessariamente musculoso, que apenas não tenha medo de tubarão. Um alarme disparado, um telefonema no meio da madrugada, uma pedra atirada contra a janela, um céu borrado por um relâmpago. Desabafo? Diários foram feitos para serem esquecidos, porque a verdade é que não temos tempo para preencher páginas com o que já passou. A mente é o único diário que vale. Pode ser que isso seja um pedido. Desses que vêm lá do fundo sabe? Só não se sabe do fundo de que. Por alguns segundos – ok, minutos... Horas, pode ser? – então, por algumas horas, queria que fizessem silêncio. Não peço para que acatem ordens ou se deixem levar por golpes, fascismos, narcisismos, não, nada disso. Nem quero que se tornem seres excessivamente filosóficos e dotados de uma chatice incontestável e inadjetivável – sorry, mama. Só quero que parem, parem um pouco, só um pouco. Guardem suas opiniões, seus ressentimentos, seus ataques, suas armas. Guardem essas vergonhas, essas loucuras, esses zumbidos. Não falem. Pensem, mas só se quiserem pensar. Que se dane o que o outro vai pensar. Que se dane o outro. Que eu me dane. Que nós todos nos danemos. Que apenas as coisas mais simples sejam importantes. Olhar o céu, roubar um beijo, trocar olhares, dar as mãos, dormir um pouco, comer aquele risoto de camarão, ok, se você é alérgico coma outra coisa, se você não gosta não coma, se não sente fome não precisa comer, faça o que quiser, faça como quiser, mas não me faça fazer o mesmo que você. Nesse momento, não nos lembraremos que todos somos um porque a intenção é perder de vista quem achamos que somos. Só nos vale a certeza de que já nos perdemos há tempos. O que vale é a textura da água, o papel cortando o dedo, o sangue em conta-gotas, o perfume da brisa fresca, a nuvem passeando, o avião berrando, o pássaro pousando, a lua brilhando, tudo ando, tudo anda, tudo indo... Mas todos parados. Quietos. Calmos. É no break que a gente se conserta. E depois concerta. Para nós mesmos.
            Depois dessas horas, seremos nós mesmos. Não, seremos mais do que nós mesmos; seremos o todo. Que para, que pensa, que age, reage, reflete. Que entende, Respeita. Ouve. Dá descanso pra garganta. Que alimenta o cérebro.
            Mas esse é só um pedido. E se esta for só mais uma forma poética de enxergar o caos, tudo bem. Pelo menos é uma forma diferente.
            No mais, chega de falar. Chega de frases congeladas requentadas no micro-ondas. Chega de palavras. Temos mais coisas legais no nosso corpo além dela – sem contar as suas outras funções que renegamos por puro esquecimento.
            Chega de tudo. 

 (Ouça l'autre valse d'amélie, Yann Tiersen) 



(Tumblr)

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A lista de presentes



               Dia desses, falávamos sobre casamento. Não sei como entramos no assunto, mas sei que eu saí cheia de ideias pipocando aqui dentro. Falávamos sobre essas festas enormes, sobre essa indústria do relacionamento, ah, sobre todas essas coisas que dizemos nos incomodar até um par de véu e grinalda aparecem na nossa frente e um litro de lágrimas rolar. “Me irrita essa gente que gasta uma fortuna na festa e pede até tapete na lista de presentes”, disse uma amiga, claro, em tom de revolta. Rimos, afinal de contas isso não faz nenhum sentido... Opa. O casamento não faz sentido. Sim, estou falando do conjunto da obra. Do véu, da grinalda, do noivo, da noiva, da festa, da lista de presentes. É muito mais do que uma instituição falida: é uma farsa.
               O que vejo por aí são casais estranhos, quase desconhecidos, unidos por um sentimento prematuro que promete grandes voos, mas que, quando violado pela precipitação e pela necessidade de mostrar à sociedade que os cidadãos envolvidos são de bem e querem constituir uma família (?), acaba se tornando inferior à poeira que reveste os álbuns de fotos. Casais que acreditam em pedaços de papel, em tradições toscas, quase risíveis. Casar-se de branco. Não deixar o noivo ver a noiva antes do “sim”. Marcha nupcial. Homem e mulher. Vestidos tão justos que é preciso um balão de oxigênio ao lado da noiva. Daminha, pajem, lua de mel, bem casado, olho de sogra, sogros, pais, parentes, aquela vizinha invejosa que deseja que seu casamento não dure nem três meses, a obrigação de procriar. A terapia de casal. O contrato pré-nupcial. Meu Deus, um contrato. Advogados. Como é que vocês não enlouquecem com isso?
               Mais do que ser contra relações burocráticas, sou contra tudo que pressiona, tudo que cobra, que obriga. Amor não é isso. Não é gastar rios de dinheiro numa festa que nada mais é do que um presente à sociedade “moderna” e “digna”. Não é se jogar num bando de tradições. Não é assinar papéis, fazer contratos, listar as etapas a serem cumpridas como se a vida fosse um grande e cansativo video game. Amor não é casamento – ou pelos menos não é esse casamento que conhecemos.
               Escolher passar a vida inteira ao lado de alguém é a loucura mais linda que eu já vi. Dedicar-se, admirar cada sorriso, enfrentar cada perrengue, se entregar, brigar de vez em quando, deixar o orgulho dar seu chilique mas depois ceder, fazer as pazes, viajar, viver a rotina, tentar quebrar a rotina e acabar fazendo disso rotina, aceitar que o dia a dia pode ser incrível e que você não mudaria nada, nadinha, nem uma gota... Depois de um tempo, festejar o que já foi vivido com um churrasco, uma festa de gala, uma viagem, uma noite num hotel bacana, sabe, só pra tomar um fôlego mesmo... Trocar alianças, sejam elas anéis, brincos, cordões, mãos dadas, fotografias, sorrisos. Vestir-se de branco... e de azul, amarelo, verde, roxo, vermelho, todas as cores, sempre com o intuito de se agradar e de agradar quem se ama, autoestima, bem estar, coisa de gente doida. Só os doidos são felizes porque eles se entregam, se permitem, escolhem serem escolhidos e são escolhidos por suas escolhas, quanta piração! Há mais mistérios e coisas incríveis entre dois seres do que sonha a vã burocracia. Coisas que desvendamos aos poucos, sem precipitações, dívidas, clichês, hipocrisias. E sobre o fato de construir uma família: olha, já ficou mais do que provado que casamentos não são responsáveis por isso. Famílias são construídas e moldadas pelas circunstâncias da vida, e principalmente pelo amor.
               Por isso, não quero me casar. Pode chamar de doideira, filosofia de vida, meta, ah, eu perdi o dicionário, faz favor. Eu quero viver todos os sentimentos que me forem oferecidos, cada partícula, cada centésimo, grão por grão. A pessoa certa não existe, o que existe é o sentimento certo. Quero vive-lo, quero dar todos os passos que meus pés cegos quiserem dar, enfrentando situações, me deixando levar, rolar, eu quero é crescer. E aí, quando estivermos sem fôlego, cansados, exaustos, no problem: vamos fazer um churrasco para comemorar tamanho cansaço, seja qual for sua razão de ser.
               “Poxa, mas quem casa quer casa”. Eu não quero casar, e a minha casa é o mundo que eu descubro a cada dia - ok, sem hipocrisia, a parte da casa eu quero de qualquer forma. Admiro quem vive relações duradouras, eternas, quase sobrenaturais de tão fortes. E pra isso, não é necessário se deixar “molhar” por uma chuva de arroz. Basta amar. Basta querer. E como eu já disse alguma vez, o resto é resto.
               No mais, de onde foi que tiraram o nome “lua de mel”? Me parece doce demais, mas tudo bem, eu respeito, até admiro.
               Sério. 

(Não sei se já indiquei essa música, mas só penso nela: I got you, Jack Johnson)

(Christian Dior)
(Se um dia eu ganhar o Nobel de literatura ou o prêmio Jabuti, é esse vestido aí que eu vou usar ;) )