De
repente, um silêncio estranho se instalou.
Deve ser
a fome, que nos ocupa a boca de forma indiscreta, nos faz virar os olhos, a
fome, essa mesma... Aquela que nasceu para ser assassinada. Como uma barata.
Deve ser
a hora. Quase dia, quase tarde, quase noite... Quase. Quase engraçado, quase
triste, quase normal, quase esquisito, quase perfeito. Quase passou da hora.
Deve ser
o medo. Medo de falar demais, de falar de menos, de grudar, de incomodar, de
parecer enjoado, enojado, repetitivo... E se deixar levar pelo mal entendido.
Medo de sentir medo. De não merecer ser merecedor. De perder a hora, o
controle, a cabeça; pra isso existem relógios, pilhas, pescoços. Mas será que o
bom senso existe?
Ah, é,
deve ser esse tal de bom senso que nos impede de abrir a boca para dizer
besteiras. Como foi seu dia? Sua semana? Sua hora sem mim? Sobreviveu? Pensou
em cortar os pulsos? Sentiu alívio? Como vai você? Ah, eu vou bem, alguns
problemas aqui, outros lá, mas nada de significante. Ah, eu vou mal, muito mal...
Alguns sorrisos aqui, outros lá, mas todos insignificantes. Bom senso à prova
de insignificantes.
Deve ser
a tensão. De viver num mundo desorientado, onde se mata para fingir que se
vive. De falar o que não deve, e falar o que deve também, e acabar devendo
palavras ou silêncio a quem disse tudo sem dizer nada. De perder o foco, a
mente, o chão... Por um simples sorriso. Ou por qualquer outra coisa que nos
deixe assim, embriagados sem uma gota de álcool no sangue, tontos sem ao menos
termos saído do lugar.
Porém, nada resiste a um bom
momento.
Um
momento que não pode ser dito, citado, descrito. Mas que é lembrado mesmo
quando não deve ser lembrado. Um momento sem palavras; apenas ar. Respiração,
sorrisos, calmaria, olhar, telepatia, abraços, beijos. Compreensão. Compensação.
Retribuição. O simples prazer de se viver. A mais perfeita combinação; encaixe.
Solução para os problemas do mundo.
Não
existe falta de assunto. É que às vezes, as palavras não cabem.
(Alejandro Giraldo)

Nenhum comentário:
Postar um comentário