quinta-feira, 10 de abril de 2014

Reflexões eólicas



O vento faz o contorno do tempo
Agride o rosto em forma de velocidade
Faz as folhas dançarem sobre as árvores em dias de chuva
Muda paisagens, conversas, caminhos...

 O vento embeleza a pele
Concretiza as sensações do corpo
Move pás e pedras para refrescar o dia

O vento arranca lágrimas à força
Tão suave e traiçoeiro...
Arrepia os cabelos, desfaz os nós
Embaralha os sentidos com sons e anseios

O vento é o feitiço da natureza
É amante das nuvens, dos céus, do mar
Um bom vivant que passeia pelos arcos da vida
E quando dá meio-dia resolve descansar

O vento faz o contorno do tempo
Tatua na gente essa fama de ser, de sentir
Gelado e quente, fraco e forte
Vem do sul ou do norte sem saber onde agir
Mas age...
Quando mexe as cortinas, quando assusta os ouvidos
Quando provoca espirros ou simples reflexões
Faz carnaval com migalhas,
Sucateia os vidros,
E no fim é só um menino querendo brincar de voar...

O vento faz o contorno do tempo
O tempo está dentro do vento
Sereno
Grudento
Terreno.

(Ouça X&Y, Coldplay)


 (Andreas Nicolas)

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Obituário



Luiza, 2 anos.
            A bebê mais bonita do berçário nos deixou neste domingo festivo de junho. Foi tranquila, serena e com aparência feliz – mas dormiu antes da hora dos parabéns. O tempo passou rápido, e seus pais sentirão saudades de seus choros progressivos durante a noite, de suas golfadas e de trocar suas fraldas. Deixará saudades.

Luiza, 6 anos.
            Este é mais um mês de junho comovente. A doce Luiza de seis anos nos deixa após anos de fofices e cute-cutes para os parentes – as focices continuam, mas agora Luiza é uma mocinha. A menininha de maria-chiquinha e que não se preocupava em cruzar as pernas ou ajeitar a saia se vai deixando um rastro de saudade e outro de curiosidade.

Luiza, 12 anos.
            Após longa espera, a criança nos deixa com uma estranha pré-adolescente. Nunca mais teremos festas infantis. Nunca mais iremos ao cinema ver desenhos. Nunca mais brincaremos de adedonha. Nunca mais seremos crianças com Luiza no jardim. Nunca mais os pedidos para raspar a bacia do bolo, para contar uma história antes de dormir. Saudades eternas.

Luiza, 18 anos.
            Antes de junho chegar, mais uma Luiza foi embora. Despedida inquieta, elétrica, quase radioativa. A adolescente se foi após longos anos de crises de autoestima e problemas com o recém-descoberto fluxo menstrual. Nunca mais o controle, as regras, os castigos, as broncas. Luiza agora é moça, estuda para ser gente, namora, sai à noite. Mais uma Luiza morta por uma Luiza. Os pais não conseguem entender tamanha perda - o clima é de tristeza e revolta. Luiza também não entende como o tempo passou rápido, e a única coisa que faz é jogar uma rosa na lápide de sua antiga versão – além de sofrer com a agonia da incerteza se conseguirá ou não ocupar o espaço da antiga Luiza no coração de seus pais. Vá em paz, Luluzinha. Seja bem vinda, senhorita de nome sério e corpo de mulher.
           
Luiza, 30 anos.
            Mais uma estrela que parte. A jovem Luiza partiu durante uma crise existencial ocorrida enquanto via um comercial de absorvente. Deixa seus vestidos floridos e suas sombras coloridas para trás, além de um bando de sorrisos tolos. Luiza agora é mais do que adulta: é dos trinta. O incrível mundo do 3.0 – Luiza agora é um automóvel.

Luiza, 50 anos.
            A mulher de trinta nos deixa com lágrimas nos olhos e convites para participar de comerciais de cremes antirrugas. Luiza parte para o mundo das fotografias, das lembranças vivas, onde vivem todas as outras Luizas que se sacrificaram para que essa existisse. A nova Luiza está feliz, porém tem medo da última despedida.

Luiza, 81 anos.
            Em algum lugar, todas as Luizas dançam e cantam. A família se reúne para uma despedida – uma despedida que virou recomeço. Luiza vive em todas as memórias – boas e ruins – que deixou. Foi feliz e fez feliz. Agora, é bem mais que uma, que duas, que três – as esferas se juntaram, os pedaços se encontraram, os caminhos se cruzaram.
            Luiza nos deixa. Mas deixa uma canção. 

(Ouça Luíza, Tom Jobim - claro, com o coração limpo de clichês)

 (Valentina)

segunda-feira, 31 de março de 2014

Crise capilar



               Ah, ainda bem que você chegou. Preciso mesmo desabafar!
               As coisas estão estranhas. Muito estranhas.
               Outro dia, caiu uma chuva torrencial. Eu havia alisado cada fio, cada milímetro da represa dessa cachoeira que aflora em minha cabeça. A sombrinha não adiantou: apenas uma gota de água e ele se armou, se armou como um gambá soltando seu cheiro e se protegendo do inimigo, como um porco-espinho ativando seu espinho, como uma água-viva incomodando banhistas com seu choque nervoso.
               Aí passou a chuva. Saiu um sol lindo, desses de fazer inveja em qualquer verão que se preze. E o bendito ficou tão esquisito! Parecia ter entrado em curto. Os fios desajustados, todos para cima, meio que revoltados com a mudança repentina de clima. Tentei cremes, géis e até mesmo lenços, mas os fiapos continuavam a aparecer, empenhados em mostrar ao mundo sua falta de sanidade.
               Meu cabelo não sabe o que fazer, e eu não sei o que fazer com ele. Quando vou dormir, está lindo, quieto, arrumado. Quando a manhã chega e preciso sair, é como se fosse um adolescente mal humorado sem a menor disposição para sair da cama. Passeios? Acho que ele é alérgico. Fotos? A busca por um ângulo agradável é insaciável. E quando estou aos beijos? É como se ele tivesse ciúmes dos meus lábios! Ou fica tão excitado que quer ser comido. Literalmente.
               Pensei em arrancá-lo de mim. Como uma imperfeição que a gente tem no corpo e resolve tirar pra se sentir mais leve. Uma espécie de depilação craniana, talvez. Mas ele conhece meu ponto fraco. Sabe como gosto dos cafunés promovidos pelos redemoinhos de dedos alheios em seus fios. Como gosto da sensação de tê-lo em mim, e como aprecio os raros dias de sorte em que ele acorda de bem com a vida. As piscadelas, os elogios, as crises de inveja... Criamos uma relação forte, à prova de piolhos e pontas duplas. Ele sabe como
o amo.
               E quando penso em quem não o tem, não imagino uma vida triste. Nem prática. Imagino apenas alguém que tem mais a se preocupar do que eu. Alguém que não tem tempo para se importar com o que vê no espelho, seja homem ou mulher. Soldados, enfermos ou simples admiradores de uma vida que foge dos padrões. Pessoas que o desejam ou não. Pessoas com histórias mais interessantes do que ele. Quando me dou conta de tudo isso, bom, é aí que percebo que minha crise já deixou de ser apenas capilar há muito tempo.
               Falando nisso, reparou nas minhas mechas californianas? 

(Ouça qualquer coisa, menos Whip my hair, por favor)
(Sol Lewitt)

domingo, 30 de março de 2014

Precisamos falar sobre nós



               Começar esse texto é uma tarefa complicadíssima. E talvez a melhor forma de tentar cumprir essa tarefa é reconhecendo tamanha complicação, como uma desculpa a ser usada quando qualquer comparação feita no decorrer das palavras pareça hipócrita ou contraditória... Bom, se bem que escrever é pisar em ovos, então, que seja.
               Creio que é chegada a hora de falar da fase mais difícil da minha vida – não só da minha vida, feliz ou infelizmente.
               Lembrei-me deste momento tão esperado após tomar um bom banho e colocar as ideias confusas de fim de semana no lugar. Acredito em purificações através do simples ato de se banhar, de lavar o corpo, de refrescar a mente e se esquecer dos problemas (ou ter mais clareza para solucioná-los) durante alguns minutos. Talvez tenha sido um bom banho que tenha me tirado dessa fase... Um só não. Acho que foram vários. É peso demais pra uma ducha só.
               Sempre que leio a palavra “adolescência” em jornais, revistas, livros ou em qualquer lugar, ou até mesmo quando ouço essa palavra sair da boca de alguém em alguma conversa formal ou informal, sinto um ar pejorativo. Como se ser adolescente fosse um crime, um desacato à vida, à moral e aos bons costumes. Adolescentes são chatos, porque parecem bichos escrotos que saíram dos esgotos, como diz a música dos Titãs. Adolescentes são rebeldes sem causa, são crianças que se acham adultos, são adultos que se acham crianças. Deviam dormir e acordar com vinte anos, quando as responsabilidades são irrecusáveis e os pais nada mais são do que aqueles simpáticos senhores que vez ou outra nos lembramos de telefonar e dizer que a vida vai bem, e que aquele almoço de domingo fica pra um domingo que ninguém sabe quando vai ser, mas que chama educadamente de “próximo”. Adolescentes são impulsivos, corrosivos, repetitivos e insuportáveis. Deviam ser proibidos. Deviam ser vendidos ou trocados por bebês bonitinhos que dão menos trabalho. “Ah, você me desculpe, mas meu filho está naquela fase complicada, você entende?”. Não, ninguém entende.
               Nem mesmo os próprios adolescentes.
               Minha mãe sempre se orgulhou do fato de eu não ser sido uma “aborrecente” (eu sempre vou ter um preconceito terrível com esse neologismo de quinta). Nunca saí, fugi de casa, respondi, bebi, fiz malcriação, dei motivo pra preocupação. Às vezes chorava sem motivo, ou queria chorar por algum motivo, mas não tinha lágrima: então chorava por dentro, se é que isso é possível. Não aborreci ninguém. Talvez porque o peso de dar problemas me incomode. Talvez porque eu nunca tenha achado graça em agir como o demônio que todos pintam. Ou simplesmente porque a disciplina de casa funcionou até demais – não sou psicóloga, please.
               Não é porque não fiz que não compreendo quem tenha feito. Sim, compreendo até demais. Se você não faz nada, é bobo (acho que sou até hoje, e não me orgulho, se você quer saber). Se você faz, é o capeta. Se você só quer dormir e que o mundo se exploda... Ah, você é um caso perdido antes mesmo de ser considerado um caso.
               Compreendo quem fez o que eu não fiz. Compreendo porque somos iguais nas nossas dúvidas e confusões e, acredite, isso é bem mais importante do que ter gostos ou atitudes semelhantes. Compreendo porque os mais velhos sabem como é difícil passar por essa fase, mas ao invés de procurarem ajuda ou simplesmente tentarem compreender (claro, sem deixar de orientar e fazer o certo, seja o “certo” o que for), as pessoas têm tanta raiva que preferem julgar – raiva ou medo de terem que passar por isso de novo. A TV mostra apenas o 8 e o 80: anjos e demônios. Pais desesperados que não sabem lidar com algo que se repete. “No meu tempo era diferente”. Ainda tem isso, o maldito problema da geração.
               Não sei e talvez eu nunca saiba passar por isso. Hoje, com quase 19 anos, não sou mais adolescente (e ainda abomino a tal da aborrecência). Tive que superar as lágrimas lá de trás, o que não quer dizer que a vida adulta não tenha as suas. Ainda vejo gerações serem questionadas ao invés de superadas. Ainda sinto que minha mãe se orgulha do tempo em que fui “boazinha”, e agora ela vê a necessidade de entender que ser humana é muito mais importante do que ser algo parecido com um anjo que caiu do céu. É hipocrisia minha dizer que tive uma adolescência feliz, e seria outra hipocrisia dizer que a tal fase seria feliz se eu fizesse o que não fiz. Descobrir o mundo sempre será a mais excitante das experiências, e começo essa etapa agora, quando sei que muitos já começaram antes de mim. Mas isso não é uma corrida, muito menos um jogo. É uma questão de sobrevivência. E isso não é exagero de gente jovem – ou velha.
               Não sou perfeita. Me escondi demais porque sim, eu tive medo do que iam pensar de mim. Ligar aquele velho botão é difícil, é como se tivéssemos medo de levar choque. Mas hoje, mesmo sem apertar o botão, é como se eu estivesse descalça e houvesse eletricidade nas paredes em que me encosto para me sustentar. Talvez eu nunca aprenda tudo que deve ser aprendido, mas isso é só um ponto de vista: aprendemos aquilo que nos cabe, que nos é imposto pela vida. De vez em quando, me escondo, porque parece que esse medo de ser quem eu sou não vai embora nunca – tô começando a achar que nunca saberei quem sou, nem mesmo quando chegar aos trinta e imaginar minha vida como num comercial de absorventes.
               Mas quem se importa? Pelo mesmo eu sobrevivi. E todos nós sobrevivemos. Mesmo que danificados, desiludidos ou cheios de esperança. O adulto que somos é o protótipo criado pelo adolescente que fomos. E a vida fica mais fácil (ou menos difícil) quando descobrimos que seremos jovens pra sempre, mesmo quando as gerações brigarem ou quando nossos filhos chegarem. E aí, quando eles passarem pelo que nós passamos, cabe a nós agir como velhos que julgam ou como jovens dispostos a descobrir o mundo; o livre arbítrio. Porque é isso que vamos fazer pra sempre: descobrir o mundo.
               Bom, acho que preciso tomar outro banho. 

(Ouçam The boy's gone, Jason Mraz)


(Tumblr)
 

sexta-feira, 28 de março de 2014

Eu, areia



Mares do norte:
Pela raiz, me cortem

Mares do sul
Levem consigo o verde
E me tragam o azul

Mares das sombras:
Ninem minhas conchas

Mares da esquina
Lavem as calçadas
E abracem suas meninas

Mares tenebrosos:
Ensurdeçam as horas
E divirtam meus olhos

Mares de outrora:
Suspendam os adjetivos
E me encontrem quando o sol baixar...

Às cinco horas. 


 (Ouça Qualquer coisa, Caetano Veloso)


 (Alfred Stevens, Moonlit Seascape, 1892)