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sábado, 12 de julho de 2014

Tédio



               Só de pensar em viver, sinto vontade de bocejar.
               As coisas são mais fáceis quando a gente só sonha, sabe? A gente fecha os olhos, imagina a vida “daquele” jeito, dorme por oito horas e pronto, tá tudo lindo, tudo novo, tudo maravilhoso... Claro, enquanto você tá na cama. Eu me entedio fácil, meu amigo. Tudo me entedia, a própria vida me entedia: essa coisa de nascer, crescer, fracassar ou dar certo e depois de um tempo (se antes você não for esmagado por um trem ou baleado por um louco), morrer. É, simplesmente deixar de viver porque acabou seu tempo, seu prazo se esgotou, a sua vida já entediou o bastante. Essa rotina enjoa.
               Mas sabe, toda rotina é assim. Não sei se tô pronta pra acordar todo dia na mesma cama com a mesma pessoa e no mesmo lugar... Não sei se tô pronta pra encarar todo santo dia o mesmo reflexo no espelho, e então me maquiar pra disfarçar o que há de imperfeito, e então perceber que existem imperfeições que nem mesmo quilos de maquiagem são capazes de disfarçar, e então chorar um pouco por causa desse ritual louco até resolver retocar a massa corrida e partir pra guerra, mesmo que a guerra só exista na minha cabeça... Não sei se tô pronta pra viver sem saber onde tudo vai parar. A gente nasce pronto pra aprender na marra, no piloto automático... Mas sabe de uma coisa? Nem tudo é certo. Se o destino tá escrito, o livro deve ter sido censurado – ou pior, nenhuma editora quis publicar. Mas tá escrito: a gente tem que acreditar naquilo que a gente não pode decifrar. Não sei se quero ser a mesma pessoa sempre. Não sei se quero fazer as mesmas coisas, se quero todo dia caminhar pelos mesmos bosques, dizer as mesmas palavras, ganhar um dinheiro no fim do mês e fazer uma farra, sair e depois voltar, continuando um ciclo aparentemente sem fim.  Não sei se casamentos valem a pena, se essa coisa de fazer uma festa, juntar duas vidas e sair por aí sorrindo como se os problemas não existissem é legal. Criar família, ter casa pronta, virar gente grande. Cair na rotina. Cair tão feio que o tombo vai doer à vida toda.
               Talvez seja melhor eu ser outra pessoa, sabe? Ou melhor, ser uma pessoa nova a cada dia. Nunca usar as mesmas roupas, mudar o cabelo sem parar, não ter teto pra não me acostumar, cair no mundo. E sentir a dor desse tombo durante toda a vida.
               Não sei. Quem vai saber? As coisas estão sempre turvas. O tédio faz a gente surtar, e pelo menos os surtos são animados; ou seja, o tédio não é tão ruim. De qualquer forma, vamos cair – só resta saber se a gente quer a dor de se entregar ou a dor de se iludir, e resta saber também quem é quem no meio de todos esses tombos que a gente leva conforme as nossas escolhas. E se a eterna busca por aventuras for um grande pé no saco? E se a grande aventura da vida for justamente a porcaria da rotina? E se a gente parasse de pensar tanto na teoria e vivesse sem pensar, apenas vivendo, deixando as coisas acontecerem, deixando os caminhos nos guiarem, deixando a vida correr por nós ao invés de corrermos na frente dela?
               Discursos não valem, meu nobre. Aliás, nada é válido numa vida que tem prazo de validade. A gente nasce pronto pra se estrepar. A gente se estrepa pronto pra nascer de novo todo dia e entender que essa rotina que eu já tô me cansando de citar, ao contrário do que a gente pensa e do que tanto diz, não, ela não existe! É invenção de gente desocupada, de gente entediada. Cabe a nós não nos acomodarmos. Cabe a nós acreditarmos no que não podemos enxergar, porque tem coisas que esses nossos olhos não estão prontos pra desvendar por inteiro... Como o céu, por exemplo. Cabe a nós fazer diferente, mesmo que tudo pareça igual.
               E se for pra dizer a palavra “rotina” pela última vez, então aqui vai: é pura hipocrisia que a gente tira da nossa cabeça. Se for pra falar de tédio, ouça bem, parceiro: se você não quer se entediar, desliga a tevê, levanta a cabeça e vai. Se não sabe pra onde ir, liga a tevê de novo, vai que começou um filme bom. Só não enche meu saco, valeu? Agora vai viver que o problema já não é mais meu.
               Só de pensar em bocejar, me dá vontade de viver.

* Inspirado numa conversa de mesa de bar. 

 (Ouça The perfect boy, The Cure) 


(Rebecca Lepkoff)


quarta-feira, 21 de maio de 2014

O que realmente somos



               Nós somos mesmo uns bichos esquisitos.
               Quando algo nos agrada, fiamos com tanto medo de perder que surtamos. Se algo nos é desagradável, caímos num abismo de negatividade, de onde parecemos nunca mais sair. Se amamos, focamos no egoísmo de saber se também somos amados; se não amamos, somos uns miseráveis cansados. Se alguém opina sobre algo, condenamos por discordar de nós ou por concordar e soltar um argumento melhor que o nosso; se a pessoa fica na dela, condenamos por ter uma boca e não usar, por parecer fraco ao investir no silêncio.
               Se alguém nos enfrenta, é um crápula; se nos apoia, é um puxa saco. Se é bonito, só pode ser ignorante; se é feio, é um coitado. Se é réu, deve morrer; se é vítima, deve pagar pela burrice. Se é do Ocidente, é impuro, desviado; se é do Oriente, é explosivo (irônica e literalmente). Se sofre, deve enxugar as lágrimas; se é feliz, pode até sorrir, mas que sorria longe de nós. Se voa, pode cortando suas asinhas, você não é nem anjo nem avião; se anda, pode tirando esses sapatos antes de entrar. Se tem vícios, é fraco; se não tem, ops, tem algo errado. É casado? Trai. É solteiro? Não vale nada. Namora? Nos enjoa só de olhar. Noivou? Enrolou. É daqui? Idiota. É de lá? Prepotente.
               Acredito que os pesquisadores de plantão ainda descobriram esse prazer que há em apontar. Pode ser que seja um prazer sexual; a mão que julga masturba o nosso ego. É muito mais do que uma questão de hipocrisia; trata-se de algo mais profundo, com ares oceânicos, enlouquecedores, tenebrosos...
               Não, não somos modernos, críticos, conservadores, literatos, revoltados, conscientes, realistas, engajados, questionadores, humanos, livres, pensadores, sobrecarregados, perdidos, complexos, perfeitos, loucos... Nada disso. A verdade é que somos pentelhos. Pelo pubianos: chatos, nojentos, eca. Mas quem vai lutar contra a anatomia? Quem vai mudar isso?
               A não ser que alguém invente de fazer uma depilação íntima. Na sociedade. 

(Ouça Team, Lorde)


 (Zaloast Chipman)

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Secos e vazios



               Certa vez, alguém escreveu sobre as vidas secas. No caso, elas cruzavam o sertão, e mesmo na imensidão de sua secura, viviam, lutavam, não desistiam. Não porque acreditavam em recompensas ou naquela máxima “everything's gonna be alright”. Mas porque simplesmente viviam automatizados pelo abandono, pela angústia, pela dor de ser o que é sem nem ao menos saber quem é.
            As vidas de hoje não são secas como as que dão nome à brilhante obra modernista de Graciliano Ramos.
            As vidas de hoje estão vazias. De tão cheias.
            É aquele mesmo papo de sempre: as notícias correm através dos nossos olhos, a rotina parece superar a velocidade da luz (sem deixar de carregar o peso da palavra “rotina”), a ansiedade aumenta a produção de unhas postiças e a fabricação de um arco-íris de tarjas envolvendo medicamentos que nos apagam antes mesmos de descobrirmos o nome do dito cujo. Saudades de quando a onda do mar era a musa do poeta, do literato, do fazedor de palavras, ah, aquela onda tão concreta que se fazia abstrata... Só nos restou a onda invisível, a eletromagnética, tão abstrata que se faz concreta. Antes, éramos adotados pelos clichês, pelas rimas pobres, mas que ainda sim preservavam o ato de rimar. Parece que desrespeitamos os nossos pais. Passamos a detestar o clichê. Tudo é cinza, tudo é muro, tudo já foi visto, já foi tocado... Mas parece que nunca nos tocou.
            Não estou dizendo que antigamente a vida era melhor. Não existe vida melhor ou pior; existe vida, e por mais que muitos a tatuem em frases feitas para preencher recados que enaltecem uma falsa autoestima, a vida real é incomparável. Mas ela é flexível, sabe? Cabe em sambas, em poemas, em conversas numa mesa de bar em que copos nunca ficam cheios por muito tempo. A vida cabe em qualquer coisa. Essa é a única coisa que podemos afirmar com toda certeza sobre a dita cuja.
            O que estou dizendo é que nos perdemos. Estamos presos na nossa própria história que parece dar voltas entre surtos, paranoias e atualizações do sistema. Não foi a rede que nos enroscou; nós é que nos jogamos nela, como se a pobre coitada fosse um urso de pelúcia gigante. Nós é que nos despedaçamos para fingir que somos inteiros. Nós é que dispensamos o amor próprio para reclamar da falta de amor em qualquer lugar que nos sirva com uma tela e meia dúzia de anônimos entediados.
            A culpa é nossa. Culpados e vítimas. Absolvidos, condenados. Abandonados dentro da nossa própria histórica cíclica... Como a de Graciliano. Aquelas que dá voltas, que dá e tira esperanças, que nos faz chorar de vez em quando, quem sabe até mesmo perder a compostura enquanto as páginas vão rolando...
            Mas não podemos perder a fé. A minha está depositada na espera do dia em que perceberemos que o importante não é a história que se conta, mas como ela é contada, como se desenvolve, como se dá.
            Há beleza em perceber que, por mais que não pareça, há algo a ser descoberto entre a mudança e a fuga. 

(Ouça O mundo é um moinho do grande Cartola na voz do também grande Cazuza) 

(Tumblr)

domingo, 13 de abril de 2014

A dor de ser



               Segundo os pediatras, ela existe. Não é uma doença, mas é como um rito de passagem.
               Segundo os psicanalistas, pode ser uma mina de ouro. Para eles.  
               Na última edição da Revista O Globo (13/04/2014), Martha Madeiros falou sobre a dor do crescimento. A que ataca as pernas e depois sobe, como a própria autora disse, para as “duas regiões de mais prestígio”: cabeça e coração.
               Há algumas horas, li uma dessas verdades ditas para fazer rir que acabam me fazendo pensar – e só. Um personagem fictício dizendo que a vida adulta nada mais é do que uma invenção das crianças grandes para assustar as crianças pequenas. Martha, se quiser continuar daqui, vai que é tua.
               Crescer nunca me doeu as pernas. Mas me doeu a cabeça de forma tão forte que até hoje lateja. Ainda me dói o coração ver como é difícil para mim e para os outros aceitarmos que já se foi o tempo da menininha. Creio que já escrevi sobre isso, mas não tão claramente. A dor de crescer se transforma, é mutante: vira dor de ser.
               Dói ser tudo e mais um pouco. Dói ser grande e querer ser pequena, porque quando eu era pequena eu tinha a mente grande, e então podia me perder por entre as minhas doideiras sem ser doida, porque eu era criança. E criança parece sentir só dor de barriga ou de ouvido. Mas a criança grita, esperneia, bota pra fora, diz o que dói e reclama, reclama até parar, até cansar, até dormir no colo da mãe depois de quase enlouquecer a pobre coitada. Quando a gente cresce, a dor diz pra gente: “vamos brincar de pique-esconde?”. Não vale parar de contar.
               Responsabilidades... Não são nada. Nem mesmo as contas, as amarras, os contratos... Nada é páreo pra essa dor de ser gente. De ter que se acostumar com as cretinices do mundo. De ter que largar as fantasias pra viver uma vida que a gente não sabe se é a melhor opção. De ter que adaptar seus sonhos a uma realidade nunca antes vista, nem nos seus piores pesadelos. De ter que romper com tudo que lhe foi ensinado para ensinar a ser o que você não foi – e dá-lhe dinheiro para o psicanalista pra entender a sua própria bagunça!
               Mas sabe o que é pior? É que não dá pra fugir dela. Não dá pra escapar dessa dor de ser o que é. Porque com o tempo, a gente se acostuma. A gente percebe que é uma dor necessária, assim como a dor de barriga nos diz pra maneirar nas guloseimas ou como a dor de ouvido nos manda ter cuidado com o vento forte no rosto, ou nos manda limpar os ouvidos; quem é capaz de entender as mensagens subliminares da dor? Com o tempo, a dor vira abrigo, vira consolo, quase um amigo imaginário. Afinal de contas, a dor de crescer é mutante, lembra?
Ninguém pede pra crescer. Ninguém pede pra ser. Ninguém pede pra doer.
               Mas também ninguém pede pra nascer.


(Ouça In another time, Sade)

(BROKEN 1000 FACES 384)

 

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Obituário



Luiza, 2 anos.
            A bebê mais bonita do berçário nos deixou neste domingo festivo de junho. Foi tranquila, serena e com aparência feliz – mas dormiu antes da hora dos parabéns. O tempo passou rápido, e seus pais sentirão saudades de seus choros progressivos durante a noite, de suas golfadas e de trocar suas fraldas. Deixará saudades.

Luiza, 6 anos.
            Este é mais um mês de junho comovente. A doce Luiza de seis anos nos deixa após anos de fofices e cute-cutes para os parentes – as focices continuam, mas agora Luiza é uma mocinha. A menininha de maria-chiquinha e que não se preocupava em cruzar as pernas ou ajeitar a saia se vai deixando um rastro de saudade e outro de curiosidade.

Luiza, 12 anos.
            Após longa espera, a criança nos deixa com uma estranha pré-adolescente. Nunca mais teremos festas infantis. Nunca mais iremos ao cinema ver desenhos. Nunca mais brincaremos de adedonha. Nunca mais seremos crianças com Luiza no jardim. Nunca mais os pedidos para raspar a bacia do bolo, para contar uma história antes de dormir. Saudades eternas.

Luiza, 18 anos.
            Antes de junho chegar, mais uma Luiza foi embora. Despedida inquieta, elétrica, quase radioativa. A adolescente se foi após longos anos de crises de autoestima e problemas com o recém-descoberto fluxo menstrual. Nunca mais o controle, as regras, os castigos, as broncas. Luiza agora é moça, estuda para ser gente, namora, sai à noite. Mais uma Luiza morta por uma Luiza. Os pais não conseguem entender tamanha perda - o clima é de tristeza e revolta. Luiza também não entende como o tempo passou rápido, e a única coisa que faz é jogar uma rosa na lápide de sua antiga versão – além de sofrer com a agonia da incerteza se conseguirá ou não ocupar o espaço da antiga Luiza no coração de seus pais. Vá em paz, Luluzinha. Seja bem vinda, senhorita de nome sério e corpo de mulher.
           
Luiza, 30 anos.
            Mais uma estrela que parte. A jovem Luiza partiu durante uma crise existencial ocorrida enquanto via um comercial de absorvente. Deixa seus vestidos floridos e suas sombras coloridas para trás, além de um bando de sorrisos tolos. Luiza agora é mais do que adulta: é dos trinta. O incrível mundo do 3.0 – Luiza agora é um automóvel.

Luiza, 50 anos.
            A mulher de trinta nos deixa com lágrimas nos olhos e convites para participar de comerciais de cremes antirrugas. Luiza parte para o mundo das fotografias, das lembranças vivas, onde vivem todas as outras Luizas que se sacrificaram para que essa existisse. A nova Luiza está feliz, porém tem medo da última despedida.

Luiza, 81 anos.
            Em algum lugar, todas as Luizas dançam e cantam. A família se reúne para uma despedida – uma despedida que virou recomeço. Luiza vive em todas as memórias – boas e ruins – que deixou. Foi feliz e fez feliz. Agora, é bem mais que uma, que duas, que três – as esferas se juntaram, os pedaços se encontraram, os caminhos se cruzaram.
            Luiza nos deixa. Mas deixa uma canção. 

(Ouça Luíza, Tom Jobim - claro, com o coração limpo de clichês)

 (Valentina)