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quinta-feira, 10 de abril de 2014

Reflexões eólicas



O vento faz o contorno do tempo
Agride o rosto em forma de velocidade
Faz as folhas dançarem sobre as árvores em dias de chuva
Muda paisagens, conversas, caminhos...

 O vento embeleza a pele
Concretiza as sensações do corpo
Move pás e pedras para refrescar o dia

O vento arranca lágrimas à força
Tão suave e traiçoeiro...
Arrepia os cabelos, desfaz os nós
Embaralha os sentidos com sons e anseios

O vento é o feitiço da natureza
É amante das nuvens, dos céus, do mar
Um bom vivant que passeia pelos arcos da vida
E quando dá meio-dia resolve descansar

O vento faz o contorno do tempo
Tatua na gente essa fama de ser, de sentir
Gelado e quente, fraco e forte
Vem do sul ou do norte sem saber onde agir
Mas age...
Quando mexe as cortinas, quando assusta os ouvidos
Quando provoca espirros ou simples reflexões
Faz carnaval com migalhas,
Sucateia os vidros,
E no fim é só um menino querendo brincar de voar...

O vento faz o contorno do tempo
O tempo está dentro do vento
Sereno
Grudento
Terreno.

(Ouça X&Y, Coldplay)


 (Andreas Nicolas)

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Perdendo tempo



               Menina, tenho tanta coisa para dizer!
               Acredite se quiser, mas o tempo passou rápido demais. Olhe para mim: estou aqui no meu leito de morte, toda seca, pálida, flácida, encruada... E a gente de repente se lembra da novela das nove! O tempo passou tão rápido e as coisas que vieram foram tão rápidas que é mais fácil falar sobre o inútil, o inconveniente, o “deixa passar”. Eu, que dediquei a vida aos filhos, amores, trabalhos e problemas, esqueci-me do inútil! Esqueci-me da novela! Esqueci-me de você, menina!
               O tempo é um monstro mesmo. Não quer saber se a gente quer viver mais um pouquinho, e eu aposto que, quando a minha hora chegar, ele vai fazer a indelicadeza de virar para o outro lado e acender um cigarro; nem se dará ao trabalho de me perguntar se foi bom para mim. Se ele quiser me levar agora, irei brava. Quantas novelas perderei, quantos netos não conhecerei, quantas histórias não se entrelaçarão com a minha... Isso é triste demais, menina!
               A situação anda tão russa que a morfina tá disputando corrida com a minha vida para ver quem acaba primeiro. Aliás, por que dizemos que a situação está russa? Menina, siga meu raciocínio enquanto ele ainda existe: pararam de dizer que a situação tá preta porque os negros não gostaram; ok, até vai, ainda mais o preto que representa o básico, o chique, o que nunca sai de moda. Nem sei quem foi o desocupado que disse que a cor preta representa as coisas ruins da vida; aposto que era um escravocrata miserável que desconhecia o poder de um pretinho básico. Espere, meu raciocínio ainda está na metade: por que dizemos que a situação está russa? Por acaso o motivo é o frio colossal que faz lá? É na Rússia que faz um frio colossal, não é? Aposto que quem inventou esse termo foi algum americano na época da guerra fria.
               A situação está preta, russa, branca, amarela, americana, sei lá. A situação está quase deixando de ser situação para se tornar uma triste lembrança que pesará por alguns dias, quem sabe por alguns anos e, com um pouco de sorte, nomeie netos ou bisnetos. A situação está por um fio – isso no tempo do imperador Wi-fi. A vida é isso; situação. Às vezes problema, mas nem sempre; futuras situações, não sofram por antecipação.
               É. Senti uma pontada que me beliscou dizendo que a hora chegou. Chega de perder tempo por aqui; hora de perder tempo em outro lugar. Até porque morrer para não viver de novo é pessimismo demais. Melhor pensar que na próxima vida eu serei uma formiga; pelo menos morrerei cedo, e o “cara lá de cima” (como diria aquela maluca das botas brancas) terá piedade de mim, e na próxima vida eu venho garota do fantástico. Ainda existe garota do fantástico? Ainda existe miss? Para você ver como o tempo é traiçoeiro; não satisfeito em me levar à força como se eu fosse uma menina pirracenta, faz questão de arrancar meu juízo assim, sem mais nem menos.
               Que na próxima vida eu seja uma televisão. Pelo menos não perderei nenhum capítulo de novela.
               Que na próxima vida eu seja uma eterna menina. Não é, menina?


Crônica extraída do livro "A culpa é do tempo".

 (Minjae Lee)

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Linha do tempo



            Oito meses. Nem nasceu ainda, está dentro da barriga. Tudo que se vê é: água, água, água. Placenta. Brinca com o cordão umbilical para passar o tempo. Como um prisioneiro, chuta sua cela, grita, revolta-se com a vida que nem chegou ainda; não é ingratidão, é pressa mesmo. Vai entender.
            Nasceu. Virou álbum de fotos, de vídeos, de figurinhas. Todas as roupinhas mais lindas, os sapatinhos, as gracinhas, as caras e bocas de joelho. Não me venha com tolices ou mímicas ridículas; não me dê problemas, me dê leite. Muito leite. Quero uma overdose de leite. Se houver algum grupo de anônimos viciados em leite (como o Alcoólatras Anônimos), quero participar. Quero que o mundo se resuma a peitos fartos e abundantes; e quando o leite acabar, quero dormir, dormir e sonhar com leite, sou um copo de leite, uma flor copo-de-leite, um peito cheio de leite, uma vaca cheia de leite, tenho pele de leite, quero/amo/sou leite. Cinco horas de sono já representam enorme período de abstinência.
            Um ano. A menina fala demais; o menino faz sons esquisitos. Começa a guerra dos sexos, um é melhor que o outro, um é mais maduro que o outro. Dane-se a idade, a genética, a criação. O que importa é o sexo, sempre o sexo; e é daí que nascem os machistas, as feministas, as futuras vítimas da lei Maria da Penha, os futuros enquadrados na mesma lei, os “bichinhas”, as “sapatas”, você tem que gostar de carrinho, você tem que brincar de boneca, você tem que cruzar as pernas quando sentar, você tem que coçar o saco, cadê a sua namoradinha?, cadê o seu namoradinho?, cadê aquele amiguinho ou amiguinha que você não deve imitar?, foque no rosa, foque no azul, a primeira festa será das princesas, a primeira festa será dos carrinhos, não haverá primeira festa; quando ele crescer, ele decidirá se quer festa ou não. Reze para não ter pais com a cabeça aberta demais; eles darão muito trabalho. Reze para não ter pais com a cabeça fechada demais; eles terão muito trabalho.
            Cinco anos. Bicicleta, sorvete, escolinha, time de futebol, amiguinhos, namoradinhos (eles nos perseguirão durante toda a vida), sábados de sol, domingos de “quero brincar no parque!”, panelas de brigadeiro, “como foi que eu nasci?”, a cegonha começa a ser citada. Quer uma dica? Fuja da cegonha. Só pense nesta criatura depois de assinar sua carteira de trabalho. O que é carteira de trabalho? Vá brincar que você ganha mais. Quando a falta de respostas vier, vire-se; não dá pra colocar a criança pra dentro da barriga e pensar no que será dito.
            Dez anos. Cresceu. Ficou chato. Emburra a cara quando ouve um não. Reclama quando ganha pijama em pleno aniversário. Não quer comer salada. Não gosta de estudar. Não quer dormir cedo. Não quer acordar cedo. Não quer escovar os dentes. Não quer usar aquele suéter de bolinhas amarelas e estrelinhas verdes que a tia fez com tanto carinho. Não quer escrever cartinha para o papai noel, mas quer presentes mesmo assim. Quer o ovo de páscoa mais caro. Quer o carrinho que o colega comprou na Eslovênia. Quer ver um filme que nem você vê para não ficar traumatizado. Já fala palavrões mesmo sem saber o significado. Briga na escola. Volta pra casa com o joelho ralado. Antes, sugava o seu peito. Hoje, suga sua cabeça.
            Quinze anos. Baile, festa, festa, baile. Mal deu o primeiro beijo e já quer a primeira transa. Mal largou o leite e já quer vodka. Mal comeu o almoço e já quer o jantar. Virou mulher na noite que deixou de ter catorze e fez quinze anos, quando trocou o all star pelo scarpin. Virou homem, já sai por aí com uma camisinha no bolso. É obrigado a ter namoradinhas, a pensar no futuro e a fazer a cama. Quanta responsabilidade. Vive de mesada, de festa, de agito, de madrugada. Vive de olheiras. Vive com olheiras. E as orelhas cheias de brincos. E os ouvidos sem tímpanos. E os sorrisos nas redes sociais. E as lágrimas para impressionar os pais. E as notas vermelhas escondidas embaixo da cama. E o tédio de domingo que te faz pensar em onde você poderia estar agora. E o primeiro amor que avassala, atropela, enlouquece. O primeiro amor que te desperta. Não quero despertar. Mas perdi o sono. Ser ou não ser? Sentir ou não sentir? Eis a questão.
            Vinte anos. Maior de idade. Flor da idade. Sou demais. O maioral. Mil namorados. Mil namoradas. Amigos para dar e vender. O amor? Deixei na adolescência. Faculdade, porque quero ser alguém. Já sou alguém: balada? Presente. Chopada? Presente. Problemas? Procurem meu epitáfio.
            Vinte e cinco anos. Os cremes contra espinhas dão lugar aos antirrugas. A faculdade acabou, o trabalho chegou, descobriu um cabelo branco e morreu de pavor. O amor apareceu de novo. Ainda é um adolescente. Mas agora quer casar, quer morar junto, quer ter filhos. O amor quer sentir o meu bafo quente pela manhã, quer descobrir minhas estrias, quer reclamar dos meus roncos, quer fazer a minha alegria durante os primeiros anos e depois procurar outro desocupado para fazer de idiota. O amor me deu um buquê de rosas, prometeu fazer tudo que eu quisesse se eu a levasse a um show de MPB, me levou para um jantar, pagou o champanhe mais caro do motel, me beijou na frente da lareira e acendeu uma lareira em mim, me fez de tapete, de cama, de parede branca para pendurar seus quadros, seus gostos, seus anseios, suas virtudes, seus defeitos. O amor me pregou uma peça.
            Trinta anos. Primeira crise. Casamento na corda bamba; os casais de celebridades dizem nas revistas que o clima de tensão aquece a relação – a minha já teve queimaduras de 1º, 2º e 3º graus. O chefe é insuportável, os filhos dão trabalho, o amor só existe no cinema e nas canções do Chico. O espelho me detesta. Depressão, síncope, TPM, reumatismo, pedra nos rins, crise de estresse, diabetes, compulsões, vírus, hérnia de disco, cirrose, enxaqueca. Trocava tudo isso por uma boa gripe causada por um beijo debaixo da chuva. Crises. Todas as crises. Trinta mil crises.
            Trinta e cinco: hora de fazer uma tatuagem declarando para o mundo que você sobreviveu – por enquanto. Quarenta, quarenta e cinco, cinquenta. Boletos, boleros, passagem de tempo, brisas de verão, furacões em todas as estações, tingir os cabelos todo mês, plásticas, consertos, manutenção, em eterno reparo. Vida que segue, que passa rápido, que não olha pra frente: simplesmente anda sem olhar para os lados, como uma criança que não ouve a mãe ensinar a atravessar a rua. A vodka é boa, mas caramba, que saudade do gosto de leite. Viver para morrer. E quem sabe, viver de novo, morrer de novo, sem parar. Como numa dança maluca onde todos seguem a seguinte canção: o tempo.
            Escravos da vida. Escravos do tempo. Caixão. Barriga. Barriga. Caixão. A ordem já não interessa. 

(Extraído do livro "A culpa é do tempo")

 (Zippora Seven)

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

No salão



               Duas moças conversam sobre escova progressiva.
- Eu não vivo sem – disse a primeira.
- Também não – disse a segunda.
- Se eu fosse cientista, criava uma lei obrigando as mães a ingerirem uma substância para suas filhas nascerem com os cabelos lisos.
- E os meninos?
- Ah, homem não tem esse problema. É só não ter cabelo duro que tá bom.
- O meu cabelo é duro. E eu não sou homem.
- O meu é geneticamente modificado. Ou como dizem os cadernos do meu filho, eu mudei o fenótipo dele.
- O que é fenótipo?
- Você não sabe o que é fenótipo?
- Eu não leio bula de remédio.
- Mas como você é burra! Fenótipo tem a ver com coisa de escola. Ciências. Vestibular. Essas coisas.
- Explica esse treco direito.
- Ah... É como se fosse o que a gente pode mudar... A cor do cabelo, a cor dos olhos, o bronze da pele...
- Mas a gente não pode mudar a cor dos olhos!
- Vai dizer que você não conhece lente de contato?
- Eu não conheço nada. Só leio revista de fofoca. Saber o que acontece na novela já é suficiente.
- Ai, eu não suportaria viver em um mundinho tão pequeno como o seu.
- Você não vê novela?
- Claro que vejo. Mas vou ao cinema, vejo filme legendado, leio revista de gente moderna. Você conhece todos os tipos de orgasmo? Sabe diferenciar amor e paixão? Sabe quando começa o Fashion Week desse ano?
- Ai!
- O que foi?
- Puxaram meu cabelo. Esse salão já foi melhor.
- Não, querida. Os seus neurônios é que já foram bem melhores.
- Eu não preciso saber isso tudo. Eu sei o que é um bom orgasmo, sei que amo minha família e... Olha, sobre esse tal de Fashion Week, eu já ouvi falar sobre ele, para sua informação.
- Tudo bem. Não vou deixar de ser sua amiga por causa disso. Eu sou uma boa pessoa, não faço Bullying com ninguém.
- Bullying? Mas isso é coisa de criança!
- Ah, amiga, eu te adoro, mas você anda muito burrinha. Precisa se informar mais.
- Então o que é Bullying?
               A amiga demorou a responder.
- É da família do racismo, ah, dessas coisas que dão cadeia.
- No meu tempo, Bullying era apelido.
- É, meu bem, mas hoje em dia tudo dá problema. As pessoas dão defeito por qualquer coisa. As nossas armaduras já foram bem mais fortes.
- Pois é. Hoje em dia tudo requer tarja preta, psicólogo, psiquiatra. Meu marido inventou que tá com depressão.
- Uau, isso é sério. O que você fez?
- Mandei tomar uma aspirina. É esse tempo que anda louco demais.
               Deram uma leve risada.
- No meu tempo, depressão era motivo pra surra de cinto. – disse a esposa prática.
- Não fale assim. Depressão é doença. Falta de serotonina. É coisa do cérebro. E é genético, sabia? Meu bisavô teve, minha avó teve e eu estou começando a apresentar alguns sintomas. Estou até com medo dos meus filhos pegarem isso.
- Ué, e já que você é tão moderna, por que não se previne?
- E o que você acha que eu faço?
- Não sei, você ainda não disse! – respondeu a “burra”.
- Lá em casa, eu fiz o armário da alegria. É o laboratório da felicidade. Você toma um comprimido, apaga e acorda tinindo.
- E se o comprimido não funcionar?
- Ué, toma outro!
               As duas entreolharam-se.
- Ai! – a moderna gritou.
- O que foi?
- Essa manicure que me arrancou um bife!
- Aproveita e guarda. O preço da carne tá pela hora da morte.
- Eu não faço compras, querida. Tenho empregada. E outra: sou vegetariana.
               A prática pediu, com um gesto, para que a cabelereira parasse de alisar seus fios. Olhou bem no fundo dos olhos da “amiga”, levantou uma sobrancelha e acabou levantando o corpo todo.
- Vai aonde com esse cabelo por fazer, menina?
- Vou pro mundo.
- Como assim? Tá maluca? Ó, se quiser eu tenho um comprimido aqui...
- Não, deixa pra você, que tá precisando mais. Aliás, minha filha, teu caso é urgente.
               E saiu andando.
- Mas hein, e esse cabelo? – A moderna gritou, ainda sem entender o que havia acontecido.
- Fica tranquila. Se eu olhar pro espelho agora, a única coisa que vai me assustar é o cabelo. O resto tá em dia.
- Que resto? Você é uma porta! Não lê nenhuma revista, não sabe nada...
               A burra olhou bem no fundo dos olhos da moderna e falou:
- Relaxa, menina. Com o que eu já sei, dá pra ser muito da feliz.
               E saiu com os cabelos divididos entre o liso e o cacheado. Mas a cabeça saiu fresca, limpa, sem problemas. E o sorriso saiu mais vivo do que qualquer outra coisa ou pessoa que passasse ao seu lado naquela calçada. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Fale o indispensável



Eu ando com um medo descomunal, sabe? É medo de elevador, de bicho peçonhento, de inseto. Medo até de avião. Acho que vou ver um médico. É esse tempo louco que deixa a gente doente por nada. Vai entender.
               Minha pressão subiu ontem. Acho que foi o tempo, sabe? Calor, frio... Porque quando faz calor, fica quente, e quando faz frio, fica gelado. Eu não entendo esse tempo que a gente espirra por tudo, e quando não espirra, não consegue sentir a garganta de tão seca que a bicha fica. Deve ser esse aquecimento global, né? Por que não puxam um gato e ligam um ar condicionado perto do planeta pra tudo voltar a ser como era antes? Que louco, não?
               Meu vizinho deu uma festa ontem que não me deixou dormir. Era um som alto, aquele bate-estaca, sabe? Meus neurônios estão fazendo qualquer coisa pra pular da minha cabeça. Eu já reclamei com o porteiro, com o zelador, com o síndico, até mesmo com o infeliz do meu vizinho eu reclamei. E pensa que adiantou? Que nada! Deve ser esse tempo louco que mexe com a cabeça das pessoas, né?
               Briguei com meu marido ontem. E eu não entendo, porque a gente se gostava tanto... Olha, não tinha uma noite que a gente não dormisse com o corpo grudado no outro. E a briga foi por besteira, coisa de casal, mas brigar é ruim demais. E sabe, moço, se fosse só o medo de perder, eu até que estava melhor. Mas o pior é que eu tenho medo de já ter perdido há tempos e só ter me dado conta agora. É porque dizem que todo casamento tem suas crises, mas pimenta nos olhos dos outros é refresco. E eu já nem sei se eu gosto dele como gostava no início, quando a gente se olhava por inteiro, um querendo cada milímetro do outro, um dando a vida para invadir a mente do outro... Deve ser esse tempo que deixa a gente desajustado. O século, a atualidade, o clima, a temperatura; tudo influencia, moço, é tudo uma questão ambiental. Eu só queria saber porque o tempo não muda para melhor pra gente se amar de novo. Tenho que conversar com os meteorologistas do momento pra ver se eu encontro uma brecha na previsão do tempo.
               Eu não ando bem da cabeça não, sabe? É muita coisa pipocando aqui dentro, um monte de pensamentos misturados, coisa de gente doida. Às vezes dá uma vontade de fugir... Mas é que eu já não tenho mais vinte anos de idade. Eu tenho filho, marido, casa, ruga. A vida mudou e nem me avisou nada, caminhou sozinha, dane-se o resto. Moço, ontem mesmo eu era jovem, eu tinha sonhos, eu queria ser tanta coisa... Eu podia ter tido o mundo nas mãos, eu podia ter feito o meu próprio mundo, mas eu quis seguir o mundo medíocre dos outros... E acabei me perdendo de mim, se é que isso é possível – bom, eu acho que é. Tem dias que eu daria a vida pra voltar tudo, e aí eu penso: será que eu teria coragem de fazer tudo diferente? Eu não sei, só sei que quando a gente fica velha, parece que o cérebro encolhe e a gente pensa tudo que não devia pensar enquanto lava a louça ou faz o jantar.
               Só me resta esperar morrer, moço. Mas isso é coisa do tempo também. Eu nem me meto.
               Isso tudo é culpa da temperatura. 




 (Diary of a lost girl, 1929)