domingo, 13 de abril de 2014

A dor de ser



               Segundo os pediatras, ela existe. Não é uma doença, mas é como um rito de passagem.
               Segundo os psicanalistas, pode ser uma mina de ouro. Para eles.  
               Na última edição da Revista O Globo (13/04/2014), Martha Madeiros falou sobre a dor do crescimento. A que ataca as pernas e depois sobe, como a própria autora disse, para as “duas regiões de mais prestígio”: cabeça e coração.
               Há algumas horas, li uma dessas verdades ditas para fazer rir que acabam me fazendo pensar – e só. Um personagem fictício dizendo que a vida adulta nada mais é do que uma invenção das crianças grandes para assustar as crianças pequenas. Martha, se quiser continuar daqui, vai que é tua.
               Crescer nunca me doeu as pernas. Mas me doeu a cabeça de forma tão forte que até hoje lateja. Ainda me dói o coração ver como é difícil para mim e para os outros aceitarmos que já se foi o tempo da menininha. Creio que já escrevi sobre isso, mas não tão claramente. A dor de crescer se transforma, é mutante: vira dor de ser.
               Dói ser tudo e mais um pouco. Dói ser grande e querer ser pequena, porque quando eu era pequena eu tinha a mente grande, e então podia me perder por entre as minhas doideiras sem ser doida, porque eu era criança. E criança parece sentir só dor de barriga ou de ouvido. Mas a criança grita, esperneia, bota pra fora, diz o que dói e reclama, reclama até parar, até cansar, até dormir no colo da mãe depois de quase enlouquecer a pobre coitada. Quando a gente cresce, a dor diz pra gente: “vamos brincar de pique-esconde?”. Não vale parar de contar.
               Responsabilidades... Não são nada. Nem mesmo as contas, as amarras, os contratos... Nada é páreo pra essa dor de ser gente. De ter que se acostumar com as cretinices do mundo. De ter que largar as fantasias pra viver uma vida que a gente não sabe se é a melhor opção. De ter que adaptar seus sonhos a uma realidade nunca antes vista, nem nos seus piores pesadelos. De ter que romper com tudo que lhe foi ensinado para ensinar a ser o que você não foi – e dá-lhe dinheiro para o psicanalista pra entender a sua própria bagunça!
               Mas sabe o que é pior? É que não dá pra fugir dela. Não dá pra escapar dessa dor de ser o que é. Porque com o tempo, a gente se acostuma. A gente percebe que é uma dor necessária, assim como a dor de barriga nos diz pra maneirar nas guloseimas ou como a dor de ouvido nos manda ter cuidado com o vento forte no rosto, ou nos manda limpar os ouvidos; quem é capaz de entender as mensagens subliminares da dor? Com o tempo, a dor vira abrigo, vira consolo, quase um amigo imaginário. Afinal de contas, a dor de crescer é mutante, lembra?
Ninguém pede pra crescer. Ninguém pede pra ser. Ninguém pede pra doer.
               Mas também ninguém pede pra nascer.


(Ouça In another time, Sade)

(BROKEN 1000 FACES 384)

 

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