Peguei
o túnel. Fui um pouco longe, confesso – será que os deuses de gramática normativa
permitem que eu use a frase “um pouco longe demais”? Ok, tentarei na próxima
encarnação. De repente, as coisas mudaram. Um ar diferente entrou no carro, e
eu já nem me lembro se estava num carro ou numa bike altamente sustentável,
sustentavelmente “alta”, ou se eu estava a pé, eu e meu par de tênis de corrida
imaginário, meus óculos de grife, minha viseira, meu iPod com músicas que meus
ouvidos não podem imaginar que existem porque Deus, ninguém consegue imaginar a
vida do outro lado do túnel. Nenhum dos lados.
É
como abrir a revista de domingo. Num piscar de olhos, compartilho com aquela
gente a ojeriza por engarrafamentos e desrespeito às ciclovias, a luta por mais
filiais daquela badalada casa de sucos... Até me esqueci que espero sentada pelo
fim do uso da palavra “badalada”, assim como as expressões “bicho”, “grilo” e
tantas outras caíram em desuso. Estou rodeada por morros, montanhas, nuvens...
Até as nuvens são lindas, são de uma lindeza que ninguém do outro lado do túnel
consegue enxergar por que... Ah, quem quer saber disso agora?
As
pessoas são diferentes. São todos artistas de um circo secreto, de um picadeiro
iluminado pelo pôr-do-sol do Arpoador e tecido pelas tribos que movimentam a
praia de Copa, ou do Leblon, ou de Ipanema... De um mirante eu vejo a onda
bater nas pedras. Ao meu lado, selfies, met, et, prop, but. Um vento suave dá
um toque nos meus cabelos: “ô rapaz, vamos ajudar a moça a ficar bem na foto,
ajeita essa juba aí”. Eu olho pra baixo e tudo que eu vejo é a onda bater, como
já disse. Quem se joga dali, ora, é morte certa. Quem se joga naquilo ali, ora,
é um sopro de vida mais forte que a ventania do Leblon, aquela que um dia foi
glacial, disse a Partimpim. A onda quebra forte, espuma branca, faz movimentos
quase indecentes de tão perfeitos. Contrastam com o azul manso de um mar
tenebroso – eis o único jeito poético de descrever o momento. Naquele mar eu vi
artistas se afogarem. Eu vi problemas se afogarem. Eu vi o metro quadrado mais
caro se afogar. Eu vi as fofocas, as invasões de privacidade, as coisas indefiníveis
que a gente tenta definir, ah, eu vi o ócio se afogar. Eu vi (e não ouvi) todos
os barulhos do mundo se afogarem. E eu me afoguei um pouquinho porque sei lá,
aquela vista me deixou zonza, talvez tenha sido a zona, a lona, a hora do
almoço se aproximando. Do mesmo mirante, eu vi toda a cidade que há pouco havia
se quebrado junto com as ondas naquelas pedras. Vi o hotel Marina, dona Marina.
Lembrei do nosso amor, claro – não, dona Marina, não é da senhora que eu estou
falando. Desculpa aí.
Eu
gosto de ser carioca. Gosto de ser da cidade mais bela, mais fantástica, mais
entorpecida e entorpecente do planeta. Mas não gosto dos túneis, zonas,
delimitações. Eu queria que tudo fosse num só lugar, sabe? Chame do que quiser:
aglomeração, favela, coisa de pobre. Que as belezas de um lado e as loucuras do
outro se misturassem... E então o Rio de Janeiro seria uma mulher, quem sabe
uma passista, quem sabe a garota de Ipanema (talvez não), quem sabe a musa da
laje, a empregada que pega o ônibus de madrugada, a patricinha que se
emperequeta mas logo tira o salto pra cair no samba e cair de boca num
espetinho de churrasco de gato, a professora que tá cansada de se sentir invisível,
a ricaça que vai ao analista pra reclamar do marido, a publicitária com a
lateral da cabeça raspada, a mãe de quatro, cinco, mil filhos, a que vende
biscoito Globo no sinal, a que já rodou todo o globo... Do jeito que as minhas
ideias correm, daqui a pouco boto Nossa Senhora do lugar do Cristo Redentor.
De
repente, voltei a procurar celebridades no calçadão. Acho que essa onda não
quebrou em mim como deveria.
Ou
eu já estou quebrada há tempos, ela é que não soube me consertar.
(Ouça 505, Arctic Monkeys - ou seja óbvio(a) e ouça Zona zen, Rita Lee)
(Leif Podhajsky)

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