domingo, 10 de agosto de 2014

"Zona zen"



               Peguei o túnel. Fui um pouco longe, confesso – será que os deuses de gramática normativa permitem que eu use a frase “um pouco longe demais”? Ok, tentarei na próxima encarnação. De repente, as coisas mudaram. Um ar diferente entrou no carro, e eu já nem me lembro se estava num carro ou numa bike altamente sustentável, sustentavelmente “alta”, ou se eu estava a pé, eu e meu par de tênis de corrida imaginário, meus óculos de grife, minha viseira, meu iPod com músicas que meus ouvidos não podem imaginar que existem porque Deus, ninguém consegue imaginar a vida do outro lado do túnel. Nenhum dos lados.
               É como abrir a revista de domingo. Num piscar de olhos, compartilho com aquela gente a ojeriza por engarrafamentos e desrespeito às ciclovias, a luta por mais filiais daquela badalada casa de sucos... Até me esqueci que espero sentada pelo fim do uso da palavra “badalada”, assim como as expressões “bicho”, “grilo” e tantas outras caíram em desuso. Estou rodeada por morros, montanhas, nuvens... Até as nuvens são lindas, são de uma lindeza que ninguém do outro lado do túnel consegue enxergar por que... Ah, quem quer saber disso agora?
               As pessoas são diferentes. São todos artistas de um circo secreto, de um picadeiro iluminado pelo pôr-do-sol do Arpoador e tecido pelas tribos que movimentam a praia de Copa, ou do Leblon, ou de Ipanema... De um mirante eu vejo a onda bater nas pedras. Ao meu lado, selfies, met, et, prop, but. Um vento suave dá um toque nos meus cabelos: “ô rapaz, vamos ajudar a moça a ficar bem na foto, ajeita essa juba aí”. Eu olho pra baixo e tudo que eu vejo é a onda bater, como já disse. Quem se joga dali, ora, é morte certa. Quem se joga naquilo ali, ora, é um sopro de vida mais forte que a ventania do Leblon, aquela que um dia foi glacial, disse a Partimpim. A onda quebra forte, espuma branca, faz movimentos quase indecentes de tão perfeitos. Contrastam com o azul manso de um mar tenebroso – eis o único jeito poético de descrever o momento. Naquele mar eu vi artistas se afogarem. Eu vi problemas se afogarem. Eu vi o metro quadrado mais caro se afogar. Eu vi as fofocas, as invasões de privacidade, as coisas indefiníveis que a gente tenta definir, ah, eu vi o ócio se afogar. Eu vi (e não ouvi) todos os barulhos do mundo se afogarem. E eu me afoguei um pouquinho porque sei lá, aquela vista me deixou zonza, talvez tenha sido a zona, a lona, a hora do almoço se aproximando. Do mesmo mirante, eu vi toda a cidade que há pouco havia se quebrado junto com as ondas naquelas pedras. Vi o hotel Marina, dona Marina. Lembrei do nosso amor, claro – não, dona Marina, não é da senhora que eu estou falando. Desculpa aí.
               Eu gosto de ser carioca. Gosto de ser da cidade mais bela, mais fantástica, mais entorpecida e entorpecente do planeta. Mas não gosto dos túneis, zonas, delimitações. Eu queria que tudo fosse num só lugar, sabe? Chame do que quiser: aglomeração, favela, coisa de pobre. Que as belezas de um lado e as loucuras do outro se misturassem... E então o Rio de Janeiro seria uma mulher, quem sabe uma passista, quem sabe a garota de Ipanema (talvez não), quem sabe a musa da laje, a empregada que pega o ônibus de madrugada, a patricinha que se emperequeta mas logo tira o salto pra cair no samba e cair de boca num espetinho de churrasco de gato, a professora que tá cansada de se sentir invisível, a ricaça que vai ao analista pra reclamar do marido, a publicitária com a lateral da cabeça raspada, a mãe de quatro, cinco, mil filhos, a que vende biscoito Globo no sinal, a que já rodou todo o globo... Do jeito que as minhas ideias correm, daqui a pouco boto Nossa Senhora do lugar do Cristo Redentor.
               De repente, voltei a procurar celebridades no calçadão. Acho que essa onda não quebrou em mim como deveria.
               Ou eu já estou quebrada há tempos, ela é que não soube me consertar.
               

(Ouça 505, Arctic Monkeys - ou seja óbvio(a) e ouça Zona zen, Rita Lee)

 (Leif Podhajsky)
 

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