sexta-feira, 21 de março de 2014

Desconexos



Especialistas definem relacionamentos baseados na posição em que o casal dorme. Nem quero imaginar o que eles têm a dizer sobre os casais que matam o tempo fazendo amor... Ou simplesmente sofrendo de insônia.
               Cientistas descobrem que nós, os seres humanos, esses metidinhos, podemos sentir 1 trilhão de cheiros diferentes. Que se danem as alergias, certo?
               Estudos comprovam que ouvir músicas tristes quando se está triste não ajuda a trazer felicidade. Ah, como esses estudiosos são espertos.
               Revistas femininas anunciam que casais sem crises não são felizes. Porém, revistas de fofoca fazem questão de anunciar a separação precoce de um casal de celebridades que foi flagrado fazendo cara feia um para o outro. Já entendi: qualquer relacionamento é crime. E pode até existir amor em SP, mas o mesmo não pode ser encontrado nas bancas de jornal.
          Sentimentos trancafiados declaram que correntes impostas por medos/inseguranças/despreparo podem parecer bonitas no drama... Mas são correntes. E devem ser quebradas.
Diferenças de gostos musicais e de sonhos podem separar casais apaixonados, é o que dizem os corações desesperados. Um minuto de silêncio pelo desespero. Coitado.
               A confiança é a coisa mais incompreensível que existe, dizem as más línguas e os cérebros imaturos. Pura verdade; só se esqueceram de dizer que a desconfiança já nasceu com vale-compreensão. Pra quem desconfia, claro.
               Cantores exclamam que a noite cai, o frio desce, mas aqui dentro predomina esse amor que me aquece. E são tão cafonas que me fazem concordar com um sem-educação que disse uma vez que a minha vida sem você é uma canção de amor tão clichê.
               Já dizia a minha alma aflita: nada que uma boa lua estampada na janela não resolva.
               Mas aí tem aquele outro cantor que disse que hoje a noite não tem luar...
               E aí o ponto final desiste da mão e vem antes da hora.

(Ouçam Vendaval, Ed Mota)

 (Tumblr)

sábado, 15 de março de 2014

Sintomas



A língua coça
A cabeça dói
A perna roça
A paz se destrói.

A lua cega
A rua esvazia
A pele se arrepia
A alma se entrega.

O ar se perde
A casa cai
A canção emudece
O sorriso sai...

I just call
To say
Eu não sei
O que dizer.

(Ouça Baby, eu queria, Nando Reis)


(Jessica Herrera Photography)


O maior dos clichês



               De repente, um medo estranho. Uma poeira que ataca as narinas e as lágrimas, lágrimas que se jogam de penhascos vivos. Somos penhascos vivos. Já nos jogamos de nós há tempos.
               Um medo louco de se perder. Por essas ruas, esquinas, avenidas congestionadas. Por essas veias entupidas de sangue e suor. Por esses caminhos desconhecidos, por esses vultos travestidos de escolhas, por essas horas loucas, tão loucas quanto o medo sentido.
               Medo de perder... Tudo. Bem mais que perder o “ser”. Medo de perder a cabeça, a firmeza, o coração. As estribeiras são nossas correntes, e não queremos perdê-las – quem disse que liberdade é perder o controle pode não estar tão errado assim. De perder a voz, de não ser ouvido, de passar batido como um ônibus, como um pássaro, como um avião, como o super-homem. Medo de perder a razão, e por isso, comprá-la. Sê-la. Registrá-la em seu nome: ninguém pode tirar a razão de mim.
               Medo de perder a luz. Aquela que te faz acordar toda manhã, que faz cócegas no seu rosto e te provoca um sorriso, que te faz viajar sem carimbar o passaporte. De perder o amor. O seu amor. O sentimento ou o penhasco. O concreto ou o abstrato. Aquele que prende quando devia te soltar, que ninguém sabe como sentir. O que nos faz ceder, o que nos faz agir, o que às vezes nos impede de reagir. O que nos tira do sério – porque talvez não tenhamos nascido pra esse tal de Sério, quem é essa cara que eu não conheço e já detesto pacas?
           O medo faz a gente perder tudo. Principalmente as lágrimas. Elas são as primeiras a desistirem da gente, e saem correndo por aí, pelos nossos poros, pelas nossas rugas, misturam-se aos nossos tiques e desesperam as outras que ficaram, formando uma espécie de tsunami. A gente perde tudo, até a vergonha. Até a identidade... Não, talvez não.
               Porque é no medo que a gente se encontra.
               E então, o susto. Há um sentimento mais clichê que o amor.

(Ouça Sunset, The XX)

(Eelus)

segunda-feira, 10 de março de 2014

Mute



               Olha só pra ela. Entra muda, sai calada. Não dá um pio, só sorrisos pobres que ninguém pediu, que ninguém provocou, que ninguém entende. Olha só pra ela, tão sem conteúdo... Enquanto há tanto a se dizer, não sai do modo mute de ser. Porque o ideal é ser...
               Intelectual. Falar sobre política. Esses mensaleiros que estão soltos. A crise na Ucrânia. Os protestos no nosso país. Os cinquenta anos do golpe militar. A maldita copa do mundo, tão imaginada e que já nasceu carregada de pragas. A greve dos garis cariocas em pleno carnaval, que podia ter gerado um bloco de rua citando aquela música, “diga aonde você vai que eu vou varrendo”, ou um bloco especialmente para os senhores engravatados que se recusam a dar o que os de laranja pedem – não, pra esses é melhor uma escola de samba; afinal de contas, o crime compensa, certo?
               Poderia falar sobre a dificuldade em ser mulher. O preconceito que ela sofre ao arranjar um emprego – será que ela tem emprego? Será que tem carteira assinada? Será que já pegou no pesado? Será que sabe o que é trabalho? Não, não deve saber. É muito bonequinha, muito caladinha, mal deve saber servir um cafezinho. Tem cara de quem acredita que nasceu pra ser servida. Tem cara de quem nunca vai ser servida; a queda.
               Ah, que fale sobre o clima. Agora chove, mas amanhã há de esquentar e derreter essa neblina. Amanhã fará sol porque hoje fez lua, mesmo que isso seja uma grande besteira; por que não abrir a boca? Por que não enrolar com língua com idiomas complicados, ou dizer palavras que ninguém usa, ou até mesmo contar umas boas mentiras? Por que não se entregar ao clima de descontração de uma mesa de bar, de uma conversa entre amigos, por que não se enturmar? Por que se calar quando a língua anseia por ar?
               Será que a língua dela anseia por ar? Ou será que só quer outra língua, apenas?
               Ou será que, nesse silêncio devastador, a menina dança por trás de milhares de pensamentos que rodopiam num balé barato movido pela indecisão? Será que ela sabe escolher as palavras? Ou será que as palavras não a escolherem? Será que ela aceita esse mundo que parece não se importar? Será que seu sonho é um dia poder gritar? Será que há dezenas de centenas de milhares de coisas que ela quer dizer, mas não consegue porque tem medo de se atrapalhar? Ou será que, dentro do seu mundo particular, há outro mundo de palavras tão estranhas que nós, meros mortais, não conhecemos?
- Não é nada disso. É dor de garganta mesmo.
               Uma chuva de romã, por favor. 


 (in sun-drenched climates)





















(Que tal ouvir Don't speak, No Doubt?

sábado, 1 de março de 2014

Uma (só) palavra



               Dia desses, minha mente estava entediada. Aí resolveu me sacanear, para variar.
               Colocou na ponta da minha língua uma palavra estranha: telepatia. Aquela que vem dos anais da psicologia, da canção da Rita Lee, das cabeças embaralhadas dos estudiosos. Talvez eu esteja dizendo demais essa palavra. Talvez eu queira pular muros, janelas e brechas no tempo. Talvez tenha entrado numa conexão perigosa, e só agora estou percebendo... Armadilhas do inconsciente.
               O desafio da única palavra é insaciável.
               Podemos falar sobre... Batata. O princípio ativo do purê, a estrela dos fast foods, a perdição em forma de legume, comida, comível, ah, eu bem que te dava um trato agora, sua safada. Te descascava todinha, te deixa nua em água, te salgava com algum tempero pitoresco. Te colocava no forno, te cozinhava, te enrolava, te fritava, te assava, te cortava, te amassava, te esmagava, te espremia, te tacava no prato e te comia, ah, eu te comeria de garfo e faca, ou até com a mão, só com a mão, ah, como eu te comeria...
               Óculos. Quatro olhos. Lentes sujas, embaçadas, cheias de dedos. Miopia. Astigmatismo. Estranha maneira de olhar o mundo, tão perfeito, tão artificial. Desperta os olhos para tudo, para todos... E até para nós e nossas manchinhas indesejáveis, nossos medos irrecusáveis, nossas armadilhas em forma de listras. Eu queria ser um par de óculos. Ou até me contentaria em ser um óculo... Se houvesse alguém para me acompanhar nessa quadrilha ocular, claro.
               Céu. Ah, desse eu posso falar até a língua imitar uma tartaruga e se enfiar por debaixo do casco. E tem tanta coisa a ser dita sobre ele que eu me perderia... E me encontraria sobre o sol a pino, desses que parecem amostra grátis do inferno. A obra de arte mais linda da minha parede. A mais valiosa vista. O melhor jeito de valorizar a menina dos olhos. O lembrete que a vida nos dá todo santo dia que sim, ela vale a pena. O eterno carnaval de nuvens e lágrimas que rodopiam sobre luzes hiperbólicas. A cor mais linda de todas as cores. O mar na parte de cima. O horizonte fresco e imbatível, à prova de tenebrosidades. Se o céu cair na minha cabeça, posso até morrer soterrado, mas morrerei feliz.
               O chão. Caímos sobre ele, e cairemos mais vezes. Nosso porto seguro; dele jamais passaremos, esse nosso corpo a ele está preso por toda a eternidade. Passos intrépidos no andar de cima; saltos quebrados podem representar o lado bom da vida. Nossa cama natural. Nosso templo espiritual. Nossa casa.
               Você. Pronome insubstituível, único, quase deprimente. Palavrinha que já virou clichê; não você em si, mas o você, o pronome, o gramatical, o insuportável. Ah, e você no seu você, nessa sua pessoa, ah, esse também virou clichê. O meu favorito, talvez. Companheiro de diálogo, de estrada, de mar adentro. O mar ardendo e a gente aqui, ensaiando conversas que nunca serão encenadas. Você: a palavra que eu nunca vou superar.
               Eu. Tão lírico que chega a ser indecente. Tão nobre que chega a ser gente. Tão real que faz a ficção cometer suicídio. Tão envolvente que chega a não existir. Tão humilde que dói. Eu sou o corpo, a alma, as poucas letras que te seguem – se você vir um E e um U correndo atrás de você, não se assuste. O lugar-comum das anormalidades. O lado bom da negatividade. O lado incerto da compaixão. O suicídio alheio. A ressurreição. A esfera perdida do dragão.
               Eu sou você, e somos um só – seja você quem for, quem tiver que ser.
               Batatinha quando nasce se esparrama pelo chão.

(Ouça Mania de você, Rita Lee)


 (Norman Parkinson)